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“Angola é uma marca e temos de melhorar a sua imagem”

Carlos Osvaldo De Jesus Raposo Macedo é Administrador da KITEC e responsável pelo lançamento da marca Mondi em Angola, exerceu funções de responsável de compras para as marcas Toyota, EKS... 

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Carlos Aguiar

Economia & Mercado (E&M) – Qual a receita para se ser um bom gestor, principalmente na conjuntura em que nos encontramos?

Carlos Macedo (CM) – Normalmente quando essa pergunta é feita a empresários penso que 99% dos mesmos pensa nas qualidades intrínsecas que podem influenciar o seu bom ou mau desempenho como líder de uma empresa. Acredito que um bom gestor não olha para si mesmo nem para os seus interesses e valores pessoais. Antes de tudo, deve olhar para o projecto que idealizou, sonhou, e que tenta estrategicamente planear e implementar. Certamente que a estratégia e o planeamento ajudam muito ao sucesso, pois só desta forma poderemos chegar onde queremos.

E&M - Como profissional, quais são os grandes desafios que tem pela frente?

CM – Nunca me concentro nas dificuldades. O meu maior problema é encaixar dentro de um conjunto de variáveis - económicas, políticas, sociais - ideias e planos que estão bem definidos mas não estão implementados devido à instabilidade dessas variáveis incontroláveis. É necessário esperar pelo momento ideal para tomar as decisões certas. O panorama actual diz-nos que o melhor é esperar antes de decidir algo, mas em mercados como o nosso as transformações acontecem todos os dias. O maior desafio é tomar as decisões certas, ou errar o menos possível nas que tomamos, mas sem nunca deixar de tomar uma decisão.

E&M - Quais são os principais obstáculos que enfrenta para alcançar as suas metas?

CM – As maiores dificuldades passam pela instabilidade das tais variáveis incontroláveis. Nos mercados emergentes é muito frequente, principalmente a instabilidade politica e económica, mas acredito que a maior transformação vai ser a nível social. Embora leve o seu tempo é aqui que vai estar a grande alteração no mercado. O actual governo está a tomar medidas de austeridade que têm como objectivo final criar, no futuro, estabilidade económica. O decréscimo do poder de compra que pode advir dessas medidas, e de outras que possam surgir, pode ser um problema no desempenho das empresas implementadas. Mas temos o privilégio que viver uma época de viragem, marcante para a vida das pessoas.

É necessário esperar pelo momento ideal para tomar as decisões certas

E&M - Qual é a sua opinião em relação à actual situação económica do país?

CM – Angola vive, provavelmente, o momento mais marcante desde a descolonização. Falta fazer muito em termos de medidas que possam ajudar a economia do país e não vai ser fácil pedir mais sacrifícios aos cidadãos, quando eles já não têm nada. Acredito que vão existir aumentos em produtos que afectam as pessoas no seu dia-a-dia, como é o caso dos combustíveis, electricidade e gás, entre outros, mas a verdade é que vamos ter que nos habituar a essas alterações. É pena que assim seja, mas não nos podemos esquecer que, infelizmente, é sempre o povo que equilibra as contas do estado.

E&M - Que importância atribui ao negócio de produtos electrodomésticos para a diversificação da economia?

CM – Em Angola quando se fala em diversificação da economia, fala-se em “agricultura”, como se este fosse o único sector em que é possível criar diversificação. A Kibabo, através da Hidrobem, também investiu na diversificação apostando forte na agricultura, mas não seguiu o exemplo de 99% das outras empresas. Investiu e vai continuar a investir ainda mais na Hidroponia, no cultivo inovador de produtos hortícolas fora dos ciclos normais de produção e com tecnologia ao nível dos países mais desenvolvidos. Se investirmos só em agricultura, ficamos com petróleo, diamantes e agricultura, o que não seria mau se esta conseguisse atingir 10% do PIB, o que neste momento é uma utopia. Existem muitos outros sectores que podem ajudar a diversificar, realmente, a economia angolana. Temos muita coisa a fazer no turismo, na indústria, sector em que Angola poderá ser um marco em África no que respeita à produção e inovação tecnológica. Mas, para isso, precisamos de acreditar. Temos de pensar como os chineses, que têm uma visão para os próximos 20 anos, e agir como os árabes, que devido às necessidades emergentes pensam e agem no imediato, pois sabem que o dinheiro do petróleo está a acabar.

E&M - Como encara a situação do mercado actual?

CM – Prevejo um aumento significativo da concorrência e uma diminuição da procura devido à diminuição do poder de compra. Contudo, pode acontecer que nos próximos anos haja um aumento do mercado devido à melhoria das condições sociais. Encaro esta situação cambial com alguma preocupação, pois precisamos de comprar lá fora e honrar com os nossos compromissos. Não é só a imagem das empresas instaladas que está em causa, é também a imagem de Angola. Angola é uma marca e temos de melhorar a sua imagem, quer internamente quer lá fora. Mas encaro o mercado com muito optimismo, porque sabemos o que queremos, onde estamos e para onde vamos.

Leia mais na edição de Maio de 2018.

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