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Comunidade ribeirinha do Tapo submersa num “mar” de probelmas sociais

Redacção_E&M
2/1/2023
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Foto:
José Azevedo

Localizada na comuna turística do Mussulo, adstrita ao município do Talatona, em Luanda, continua “assombrada” pela ausência de serviços básicos de saúde, educação, água e energia eléctrica.

Numa reportagem levada a cabo recentemente pela Economia & Mercado, constatou-se que os 318 moradores da comunidade do Tapo, localizada paralelamente entre a Estrada Nacional 100 (EN100) e a Ilha do Mussulo, percorrem mais de três quilométros para ter acesso aos serviços especializados de saúde, formação académica, técnico profissional, bem como para adquirir bens de primeira necessidade.

De acordo com o coordenador do bairro, Filipe Dala, para frequentar as aulas no ensino público ou privado, os filhos dos moradores percorrem cerca cinco quilómetros diariamente até ao bairro das Plamerinhas, onde tem uma escola do ensino público, correndo o risco de perderem a vida atropelados pelas centenas de automóveis ligeiros e pesados que trafegam pela EN100.

“A comunidade está a crescer, há muitas meninas gestadas. Temos tido problemas para transportá-las para o distrito dos Ramiros, é o ponto mais próximo com hospitais com capacidade para fazer serviços de trabalho de parto. Por outro lado, não temos escolas, por isso, estamos a pedir ao governo, no sentido nos ajudar a colocar uma escola e um hospital”, disse.

Sobre o consumo de água salobra, Filipe Dala disse que é um problema “mais ou menos ultrapassado”, uma vez que conseguiu-se construir um tanque com a capacidade para armazenar cerca de 60 mil litros de água potável, permitindo o consumo seguro do produto vital para a saúde.

Segundo o responsável, o abastecimento do líquido precioso é assegurado regularmente com o apoio directo da Associação Juvenil de Apoio às comunidades (AJACOM), instituição que apadrinha a referida comunidade desde 2016.

“AJACOM desde sempre trouxe bens alimentares, roupas e não só. Aparece sempre nos momentos difíceis”, referiu.

Ainda sobre a intervenção desta organização da sociedade civil, o Paulo Faria, também morador do Tapo, disse que “muita coisa mudou”, sobretudo no que ao consumo de água tratada diz respeito, além de outros apoios pontuais. “Deixamos de consumir água imprópria, por exemplo. Actualmente nos trazem bens diversos como vestuários e alimentos. É muito bom”, sublinhou o voluntário que apoia organizações sem fins lucrativos que desenvolvem projectos sociais e ambientais, como a ONG, Otchiva, que trabalha no repovoamento dos Mangais.

Porém, a fonte considerou ser urgente a construção de um posto médico para se evitar mortes, sobretudo de crianças. “Precisamos de um posto médico porque já perdemos três senhores por falta de assistência médica. Queremos que a AJACOM nos ajude também na saúde, um centro de formação e uma pequena escola”, apelou o morador e voluntário.

Por sua vez, Sofia Bunga, que igualmente vive no referido bairro, aguarda ansiosa pelo dia em que conseguirá aplicar na prática os conhecimentos que recebeu durante uma formação em pedagógia, que dá realce para o acesso inclusivo ao ensino.

Segundo a interlocutora, o grande problema consiste na falta de condições de infra-estruturas e de meios de ensino. Contudo, frisou, espera ansiosa pela concretização do sonho de poder ensinar numa escola do seu bairro, por mais pequena que seja.

A Economia & Mercado tomou conhecimento que Sofia é a primeira senhora da comunidade formada em pedagogia (Magistério Primário) pela Ajuda de Desenvolvimento de Povo Para Povo (ADPP), do distrito dos Ramiros, em Luanda, numa acção de advocacia liderada pela AJACOM em 2019.

“A associação tem ajudado muito. Há vontade por parte das crianças e da minha parte também muita paciência e amor para ensinar e ajudá-las a superar o atraso e o abandono escolar, mas infelizmente faltam meios”, lamentou a professora que concluiu a formação em 2021.

Não temos como começar, salientou, visivelmente constrangida. “Quero que a educação dos nossos filhos mude, e eles têm muita vontade para aprender. A ausência de uma escola na comunidade e a distância para frequentar a escola nas Palmeirinhas têm sido um  problema. Os pequenos que estudam nas Palmeirinhas sofrem muito, que por estarem  acostumadas  não vêem distância de frequentar a escola”, referiu a professora Sofia.  

As família da comunidade desenvolvem actividades económicas como o artesanato, pesca e a produção doméstica de sal, algures do bairro.

Natal do amor

Na sequência de um programa permanente, a Associação Juvenil de Apoio às Comunidades (AJACOM) realizou a sétima edição do “Natal do amor”, evento criado e lançado em 2016, ano de apadrianhamento da comunidade do Tapo.

Debaixo de uma figueira, os mais 30 membros da AJACOM e os moradores reuniram-se no dia 23 de Dezembro para celebrar o Natal do Amor de forma antecipada que ficou marcada por momento cultural, envolvendo teatro, desfile, dança, capoeira e um momento de conversa sobre a solidariedade.

Durante o evento, foram entregues cestas básicas, contendo arroz, massa, óleo e outros bens de primeira necessidade, tendo, também, sido aproveitada a ocasião para servir uma sopa às crianças da comunidade, que receberam aperitivos, sumos, sandes, bolinhos, e outros produtos típicos da época de natal, além da distribuição de vestuários.

De acordo com o presidente da AJACOM, Hermenegildo Manuel, os projectos da organização estão voltados para feiras de saúde, com realce para acções de preveção de doenças, um modelo de engajamento comunitário que é co-financiado pelo Instituto Camões, bem como o projecto Mais e Melhor Saúde que é co-implementado com a World Vision Angola.

O Natal do Amor e outros eventos foram lançados e realizados em parceria com a empresa brasileira (Núcleo de Comunicação), que no âmbito do Projecto Acção Solidária, mobilizava donativos constituídos de bens alimentares, vestuários, brinquedos e outros, visando minimizar as necessidades pontuais da comunidade do Tapo, especificamente.

Criada em 2012, a Associação Juvenil de Apoio às Comunidades (AJACOM) apoia a comunidade do Tapo desde 2016, tendo instalado um reservatório de água com a capacidade para armazenar 10 mil litros de água potável, regularmente abastecido por caminhões cisternas fretados.