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“É preciso motivar os angolanos bons e que têm conhecimento nas várias áreas”

Ricardo Guerra está à frente de um projecto de produção de bebidas destiladas em Benguela e foi produtor de vinhos do Douro e Porto durante 10 anos por ligação familiar.

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Fotografia
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Como avalia o sector das bebidas, em particular as destiladas, em Angola, tanto do ponto de vista de investimento e infra-estruturas, quanto da qualidade dos produtos e serviços?

Tenho como grande exemplo a indústria cervejeira nacional e o trabalho e investimento feito ao longo de décadas em Angola. Acredito que as bebidas destiladas podem igualmente seguir o mesmo percurso, não com a intenção de atingir os mesmos volumes, mas com o foco de melhorar a qualidade dos seus produtos e também substituir o produto importado pelo nacional. Mais uma vez, dou o exemplo da cerveja: hoje, felizmente e bem, o sector apresenta um produto de qualidade que fez com que o consumidor se despisse de preconceito e se deixasse de importar as quantidades astronómicas de cerveja estrangeira. Obviamente que também contribuiu para isso a intervenção do Estado, taxando esses produtos de forma a proteger a economia local e os produtos nacionais. No entanto, existe ainda uma necessidade enorme de criação de uma cultura agrícola industrializada em Angola, de forma a não termos de importar tantos produtos dos quais dependemos para o funcionamento sustentável das empresas de bebidas. Falando dos destilados, o aparecimento de uma grande indústria como a Biocom é factor de grande ânimo e satisfação para a indústria nacional de bebidas destiladas.  Esse apoio dá-nos qualidade e autonomia local, com o fornecimento regular de produtos como o açúcar, o melaço e o etanol neutro de qualidade. Não creio que o problema das empresas de bebidas seja ao nível das infra-estruturas, porque grande parte desse investimento já está feito. Actualmente, não nos podemos dar ao luxo de ser amadores quanto ao produto que apresentamos, pois o consumidor tem cada vez mais oferta e a sua avaliação é o que conta no final para a sua escolha. Na Caxaramba não somos produtores de álcool, somos sim produtores de uma bebida alcoólica. Acreditamos que o método de produção tem de ser diferente do até aqui utilizado, temos de motivar os pequenos agricultores de cana e abacaxi… temos de fermentar os nossos produtos, destilá-los e envelhecer em madeira, criando cada vez mais stock de produtos de qualidade para podermos competir directamente com os produtos estrangeiros pela qualidade. Depois, para nos prepararmos para competir directamente com esses mesmos produtos pela imagem, pela qualidade de comunicação e pelo orgulho do que é nosso. É com satisfação que vemos a Caxaramba ao lado de marcas importadas de renome nos supermercados, nos restaurantes, nas festas e espaços noturnos. Angola tem história e tradição no qua à cultura da cana do açúcar diz respeito e ao nível da transformação e produção de bebidas é todo um caminho que está a começar. Não tenho a menor dúvida que temos capacidade de conquistar o mercado nacional - que nos pertence - para mantermos o sonho de um dia internacionalizarmos o nosso rum.

Os recursos humanos ainda são, em Angola, um dos calcanhares de aquiles das empresas. Na área em qua actua, qual é a realidade?

Sem dúvida que os recursos humanos são uma preocupação e infelizmente vão continuar a ser nos tempos mais próximos. Não digo ao nível dos quadros juniores, mas ao nível dos quadros seniores. Ainda, infelizmente, é preciso importar demasiado conhecimento. É preciso motivar os angolanos bons e que têm conhecimento nas várias áreas. Fazer regressar os que adquiriram

conhecimento lá fora e motivá-los a fazer a sua vida em Angola. É importante detectar as nossas reais necessidades e o que podemos produzir e depois adaptar as escolas e universidades a essa estratégia. Fala-se tanto em Agricultura neste tempo, mas aonde estão as escolas e os cursos agrícolas em quantidade e qualidade no país? E os quadros para darem a formação que é necessária? É todo um caminho que temos que percorrer do qual fazemos parte e em que acreditamos. É motivante e motivo de orgulho que a Caxaramba, mesmo sendo uma empresa pequena, emprega 50 funcionários, entre eles jovens com grande capacidade e talento nas várias áreas da empresa, onde lutam, trabalham, adquirem conhecimento e, consequentemente, fazem que a Caxaramba seja cada vez mais conhecida e reconhecida.

... Temos de motivar os pequenos agricultores de cana e abacaxi… temos de fermentar os nossos produtos, destilá-los e envelhecer em madeira, criando cada vez mais stock de produtos de qualidade para podermos competir directamente com os produtos estrangeiros pela qualidade.
... "não somos produtores de álcool, somos sim produtores de uma bebida alcoólica"

De que forma a sua empresa navega no actual contexto macro-económico nacional, afectado por uma crise económica financeira e, desde o ano passado, pela pandemia do Covid-19?

Acrescentaria a isso outro factor que é o preconceito de beber um produto nacional. Somos uma empresa de bebidas e como tal temos noção da responsabilidade social que isso acarreta, daí ser fundamental o melhoramento todos os dias da qualidade do nosso produto e a nossa comunicação com os nossos clientes e o público-alvo. É possível vender bebidas em Angola e em África com responsabilidade social, com cultura e com história, mas principalmente fazê-las com qualidade, amor e paixão, motivando e fazendo parte de conceitos como os produtos de qualidade, apoiando e fazendo parte de movimentos como a mixologia, e vendendo bebidas de forma mais leve e harmoniosa, como em cocktails. Estamos a criar tradição ao guardar lotes de rum para geração futura, proporcionando produtos de maior qualidade. Hoje, os investimentos são feitos a longo prazo, já não se investe para ganhar ontem e a margem do empresário diminuiu drasticamente. Quanto aos factores económicos e de crise financeira, somos uma empresa como tantas outras que têm de reinventar-se nestas alturas. A Caxaramba nasce precisamente num contexto de luta para reduzir a importação e fazer o máximo internamente. Mais de 90% das nossas compras são feitas internamente. Relativamente à Covid-19, num país aonde se morre de doenças como malária, Sida, hepatite e males como a pobreza e a má nutrição, esta pandemia é apenas mais um mal que os angolanos e africanos olham com desconfiança, mas que com certeza irão lutar com a força e determinação que lhes é reconhecida. Quisemos, de uma forma mais activa, participar nesta causa e juntamente com o Laboratório do Instituto Jean Piaget de Benguela criámos na nossa destilaria um álcool Gel.

A Caxaramba nasce precisamente num contexto de luta para reduzir a importação e fazer o máximo internamente. Mais de 90% das nossas compras são feitas internamente.

CV/ BI

Ricardo Guerra, empreendedor

Do seu avô materno herdou o gosto e a paixão pela produção, frequentou o curso de Engenharia Biotecnológica no Instituto Politécnico de Bragança e mais tarde estudou Enologia U.T.A.D, em Portugal. Foi produtor de vinhos do Douro e Porto durante 10 anos por ligação familiar. Actualmente, tem em mãos o seu projecto de vida e, mais uma vez por influência familiar, agora pelo seu avô paterno angolano que sempre lhe incutiu o amor e a paixão pela sua terra. Com todas estas influências surgiu a Caxaramba, empresa de bebidas nacionais, produtora do primeiro rum 100% angolano.

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