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“Exportadores de matérias-primas devem tirar partido da subida dos preços para reforçar a credibilidade macroeconómica”

O PIB real da África Subsaariana cresceu 4,2% em 2021, mas para este ano, o FMI prevê um crescimento de 3,8%, por causa do aumento da pressão do petróleo e de outras matérias-primas.

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A invasão da Ucrânia pela Rússia desestabilizou os mercados mundiais de matérias-primas, aumentou as tensões geopolíticas e agravou as já difíceis perspectivas económicas da região África Subsaariana, incluindo a actual restrição monetária nas economias avançadas.

As taxas de juros mais elevadas nas economias avançadas vão ter um impacto nas taxas de juros que são praticadas nos países africanos e tudo indica que os Governos vão ter que pagar mais caro pelas dívidas que possam contrair ao longo deste ano.

Segundo o Economista Sénior do Fundo Monetário Internacional (FMI), Vitaly Kramarenko, para além da pandemia e das actuais tensões geopolíticas, a criação de emprego e o cumprimento dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável exigirão um crescimento forte, inclusivo e sustentável na África Subsaariana.

“Embora tal possa resultar num ganho inesperado para alguns grandes países exportadores de matérias-primas, o aumento dos preços desses produtos está a comprometer os saldos orçamental e externo nos países importadores de matérias-primas, ameaçando simultaneamente a segurança alimentar e a acessibilidade dos preços da energia para as suas populações mais vulneráveis”, relatou o Economista na apresentação do relatório do FMI sobre as Perspectivas Económicas Regionais, organizada, recentemente, pelo Centro de Estudo e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola (CEIC-UCAN).

Em formato de recomendações, o investigador salientou que é essencial uma maior diversificação económica, e que os exportadores de matérias-primas devem tirar partido da subida dos preços para reforçar a credibilidade dos seus quadros macroeconómicos, melhorar o clima de investimento e ponderar a utilização de intervenções sectoriais específicas em caso de falha do mercado.

Aumentar o crescimento potencial exige igualmente a mobilização de todo o potencial do sector privado. “Por exemplo, uma implementação bem-sucedida da Zona de Comércio Livre Continental Africana impulsionaria consideravelmente o crescimento e a competitividade regionais”.

As autoridades públicas devem também explorar novos canais de financiamento para impulsionar o investimento privado, ao conceder incentivos transparentes e bem formulados aos projectos de infraestruturas, em colaboração com instituições internacionais de financiamento do desenvolvimento.

Na ocasião, o professor e Economista Alves da Rocha, mostrou-se preocupado pelo facto das medidas até agora emanadas pelos Governos africanos não surtirem efeito.

“Os países da África Subsariana, há muitos anos, desde as suas independências, que têm tido dívidas com o FMI, Banco Mundial, União Europeia. O facto é que as economias subsaarianas continuam frágeis, continuam altamente sujeitas à efeitos que vêm de lá fora e que não são provocadas pelos africanos e nem pelas economias africanas. A chamada “crise do subprime” em 2008, foi uma vez provocada pelos Estados Unidos e os países africanos foram os que mais sofreram com os efeitos negativos desta crise. Portanto, não se consegue, em África, criar, aparentemente, economias resilientes, não se consegue criar políticas e estratégias que defendam os africanos dos erros das economias americanas”.

O também director do CEIC-UCAN, reforça com uma segunda observação sobre a diversificação económica. “Os economistas sabem muito bem que o problema da diversificação é um processo complexo e demorado. Esta questão exige muito investimento, tanto em capital físico, como financeiro. Mas o que eu noto é que, em Angola, se fala da diversificação da economia já há 15 anos e nada está a acontecer de relevante. No meu ponto de vista, o tema da diversificação é um processo que tem a ver com a mudança de mentalidades. Enquanto não entendermos este processo, não creio que possamos esperar resultados significativos neste domínio”.

E vai mais longe “Não se pode resumir apenas quando se trata do PIB petrolífero diminuir e o PIB não petrolífero aumentar, não se pode resumir à isso, tem sido muito mais fundo. E essa questão da mentalidade é fundamental e está relacionado com a educação. Não é suficiente irmos ao Orçamento Geral do Estado fazer estabilização macroeconómica e dizer que vamos libertar mais verbas para aumentar a educação e saúde. Não é disso que se trata, porque não é suficiente aumentar as verbas da educação, é fundamental aumentar a sua eficiência”, finaliza.

Em resposta, Vitaly Kramarenko reconhece que o processo de diversificação é bastante complexo, mas salienta, contrapondo em parte,  que não se pode negar os progressos significativos alcançados nos últimos anos.

“Estamos a tentar tirar ilações do passado. Se analisarmos o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) vamos perceber que os países da África Subsaariana registaram progressos significativos no domínio de várias metas. A taxa de escolarização aumentou, assim como em termos de saúde. Há um número menor da população que se encontra abaixo da linha de pobreza, então há um conjunto de indicadores que foram melhorados ao longo do tempo nas economias africanas”, detalhou.

O Economista Sénior do FMI lembrou ainda que Angola cresceu 0,7% em 2021, invertendo um período de recessão de cinco anos, mas que o país não pôde tirar pleno partido dos elevados preços do petróleo, devido a problemas técnicos recorrentes e ao baixo investimento alocado à produção de petróleo. Entretanto, espera  que o crescimento da economia angolana acelere para 3% em 2022, sendo os sectores não petrolíferos (agricultura, construção e transportes) os principais impulsionadores do crescimento.

No médio prazo, o crescimento poderá ascender gradualmente a 4% devido aos preços do petróleo elevados e ao forte desempenho dos sectores não petrolíferos. Os principais riscos para estas perspectivas, segundo conta,  incluem a inflação elevada, com destaque aos produtos alimentares e a persistência de problemas na produção de petróleo.‍

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