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Ficar em casa e morrer de fome ou expor-se ao contágio de uma doença impiedosa

Nas periferias de Luanda regista-se uma clara luta entre o cumprimento das medidas do Estado de Emergência e a procura do pão de cada dia.

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Fotografia
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Sebastião Vemba

Fome, atraso salarial e a busca pelo "pão nosso de cada dia" são a razão para a normal circulação das pessoas nas ruas de Luanda, em clara desobediência ao decretado Estado de Emergência.

No Norte de Luanda, nomeadamente em Cacuaco, Sambizanga e Cazenga, a vida continua normalmente. Nalguns casos, até são notáveis alguns excessos por parte da população, como música alta, jogos de rua e trânsito normal de moto-taxistas. A situação é aproveitada também por alguns agentes da  Polícia Nacional para extorquir valores e bater na população.

Nelson Ricardo, morador de Cacuaco e dono de uma Roulote, viu os seus aparelhos de som retidos pela Polícia, mas bastou pagar 30 mil kwanzas para reavê-los e manter um "casamento perfeito" entre as  autoridades e a desordem. A música continuou na Roulote horas  depois e serviu atrair a clientela.

A fome é justificada pela população para sair a  rua.  " Não trabalho e sem vender não tenho onde tirar o que comer", disse uma cidadã abordada  pela E&M.

Já Francisco da Rosa, morador de Viana,  denuncia desrespeito ao Estado de Emergência e não culpa os agentes da Polícia Nacional por algum excesso de zelo, argumentando que estes apenas reagem à desobediência da população. Entretanto, admite que falta mais sensibilização sobre o assunto junto das população.

No Mercado dos Kwanzas, no Cazenga, por exemplo, apesar da proibição da venda de bens não  essenciais, é visível a azáfama habitual e comércio de bens diversos, incluindo a alimentos, mas sem o mínimo cuidado e condições sanitárias.

A realidade deste mercado é idêntica a do Kicolo, onde, apesar da presença de polícias e militares, equipados com meios bélicos, a população vende mas imediações.

As autoridades também não poupam esforços para impor a ordem. Orlando Afonso Paca, administrador do Distrito Urbano do Ngola Kiluanje,  disse que, enquanto representante do Estado, tem feito o seu trabalho. De dois em dois dias sai a rua para desincentivar os moradores a deambular pelas ruas, mas nem sempre tem sucesso. "É uma questão de consciência e cada um de nós tem de conversar com a sua família", disse.

Durante os primeiros sete dias de Estado de Emergência, a polícia já deteve mais de 1500 cidadãos, segundo dados oficiais, por desobediência.

O Ministro do Interior, Eugénio Laborinho, apesar do discurso musculado que adoptou em conferência de imprensa, na semana passada, admite haver algum excesso dos agentes da ordem, sobretudo nos mercados e lojas de venda de gás butano. Pelo menos 12 agentes da Polícia Nacional já foram detidos, alguns por suborno.

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