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FMI ‘ignora’ consequências sociais em Angola

As reformas económicas em curso, no país, "que deveriam acontecer antes, decorrem sob pressão do FMI", considera o economista Alves da Rocha.

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António Nogueira
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António Nogueira

As reformas económicas actualmente em curso, em Angola, que contam com o alto apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI) “não interessam o desenvolvimento económico e social do país”, afirmou esta semana, em Luanda, o director do Centro de Estudos e Investigação Científica (CEIC), Alves da Rocha.

Mostrando-se preocupado com a actual situação socioeconómicado país, o economista, que diz conhecer as causas na base do actual quadro, assinalou por outro lado sentir que “o modelo que está a ser usado presentemente com o apoio do FMI não é o modelo que interessa para uma criação das bases para o desenvolvimento económico e social de Angola”.

Segundo Alves da Rocha, que refuta argumentos sobre a falta de alternativas ao actual modelo de recuperação da economia e da estabilização das finanças públicas, a estabilização macroeconómica "é um processo que pode ser adequado ao crescimento económico".

Para o director do CEIC, que falava na sede da Universidade Católica de Angola (UCAN), em Luanda, durante a apresentação do Relatório Económico de Angola 2018, elaborado pelo CEIC, apesar da existência de argumentos de que o fim da estabilização macroeconómica de Angola depende de uma percentagem mínima do rácio da dívida pública, a estabilização "é um processo que converge para a sustentabilidade do crescimento económico".

Alves da Rocha recordou na sua intervenção que a economia nacional se encontra num processo de recessão desde 2015, considerando que as reformas em curso, "que deveria acontecer antes, decorrem sob pressão do FMI".

Redução do défice orçamental e do peso da dívida pública no Produto Interno Bruto (PIB), assinalou o economista, são os objectivos macros das reformas determinadas pelo FMI, sendo que, segundo observa, "as consequências sociais desses ajustamentos não são da área de preocupação do FMI".

"Isso foi-nos dito, claramente, aqui nesta sala quando fizemos uma reunião com os representantes do FMI em Angola ante a preocupação da deterioração constante e permanente das condições sociais da maior parte da população angolana", rematou.

A taxa de pobreza em Angola ronda os 42%, enquanto a da pobreza extrema se situa nos 20%, segundo estima o CEIC. Para Alves da Rocha, estes números sinalizam a “degradação constante do nível de vida dos angolanos”, motivada pela crise que o país vive desde finais de 2014.

A décima sétima edição do estudo, orçado em cerca de 19 milhões de kwanzas, aborda a política orçamental, monetária e cambial, analisa a balança de pagamentos e o nível geral da atividade económica de Angola em 2018, bem como o emprego e a produtividade nesse período.

Recorde-se que Angola enfrenta, desde finais de 2014, uma forte crise económica, financeira e cambial devido a queda do preço do petróleo no mercado internacional, maior suporte da economia nacional, com vários reflexos negativos na vida socioeconómica dos cidadãos.

Em consequência desse cenário adverso e para inverter a situação, o Governo angolano assinou com o FMI um programa de assistência financeira orçado em 3,7 mil milhões de dólares, cujo período de reembolso é de 10 anos a uma taxa de juro anual não superior aos 3%.

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