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Jiu-Jitsu. Meninos de ouro

Em 2016, Angola conquistou 16 medalhas no campeonato do mundo de Jiu-jitsu, realizado no mês de Abril em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos.

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Angola conquistou 16 medalhas no campeonato do mundo de Jiu-jitsu, realizado no mês de Abril em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos. Participaram no evento 30 atletas angolanos com idades entre 10 e os 17 anos, que obtiveram sete medalhas de ouro, seis de prata e três de bronze. A academia do titulado Walter Faustino foi considerada a melhor equipa estrangeira da competição, conseguindo sete medalhas, três de ouro, duas de prata e igual número de bronze. No mês da criança, a E&M homenageia alguns dos meninos de ouro e o seu treinador.

“O Jiu-jitsu é uma arte marcial criada no Japão e desenvolvida no Brasil por um mestre chamado Ellie Gracie, para que os mais fracos em termos de peso pudessem também ter a oportunidade de vencer os que têm mais peso através de técnicas de luta”, definiu de forma simples Walter Faustino, ou mestre Lobão, como é mais conhecido o angolano que colecciona pódios em campeonatos do mundo de Jiu-Jitsu, na categoria de pesos médios. Em Luanda, concretamente na centralidade do Kilamba, Walter Faustino tem sob sua orientação mais de 180 crianças, todas interessadas em aprender a arte desenvolvida por Ellie Gracie. 

O projecto evolui dia após dia e conta com o apoio dos pais das crianças, que criaram uma Associação de Pais para ajudar a academia no que for necessário. “Como atleta, quero criar condições para que os que estão a começar não passem as mesmas dificuldades por que passei. É um trabalho de grande pendor social, não pretendemos fazer dinheiro ou conquistar apenas medalhas, queremos desenvolver esta prática para tornar estas crianças em pessoas melhores e disciplinadas, por isso os pais estão envolvidos neste processo”, esclarece. 

Em três anos de existência, mestre Lobão revela que formam a primeira equipa africana a ter campeões mundiais na classe infantil. “Com a ajuda dos pais, sem qualquer patrocínio, neste mundial conseguimos levar 16 meninos, sendo que destes, três foram campeões mundiais, dois conquistaram prata e igual número de bronze, tendo sido considerada a melhor equipa estrangeira do campeonato em termos de resultados”, frisa orgulhoso. Para um grupo que começou com cinco pessoas, mestre Lobão sustenta que isso demonstra que o trabalho está a ser bem feito, mas precisam de manter o nível, por isso, pedem o apoio das empresas. “Não pedimos somente dinheiro, mas sim pessoas dispostas a contribuir ou a ajudar de outras formas”, rebate.

Walter Faustino destaca a importância da prática de desportos, reafirmando que o desporto molda as pessoas, tona-as disciplinadas, uma vez que o desportista tem hora para acordar, tem de ser pontual nos treinos e obedece a várias regras para ter resultados. O também atleta adianta que a filosofia das artes marciais, em particular, cultivam o “companheirismo e camaradagem, por isso há uma complementaridade que transforma as pessoas”, destaca. A academia de Walter foi aberta com o apoio do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, que, depois de o ter recebido em audiência, prometeu que haveria de ajudar no desenvolvimento da actividade. “Sua excelência ajudou muito, porque com isso criou-se uma Federação de Jiu-jitsu, passámos a trabalhar mais directamente com o Ministério da Juventude e Desporto, que tem apoiado, mas precisamos de mais e isso pode ser responsabilidade dos empresários”, defende. 

Quem são os campeões?

Lobão: o coleccionador de medalhas 

 Walter Ruben António Faustino, 28 anos de idade, casado e pai de dois filhos. Categoria pesos médios. Campeão Mundial de Jiu-jitsu em 2012, medalha de ouro, em 2013 foi vice-campeão do mundo, conquistando a prata. Em 2011 ocupou o terceiro lugar, obtendo o bronze. 21 vezes campeão em Opens Mundiais e vários outros títulos no campeonato brasileiro pela academia que representa no Brasil, onde tem uma equipa, por Angola ainda não contar com um campeonato regular de Jiu-jitsu. 

Ruben Alexandre Figueira Van-duném de Melo 10 anos de idade, 5ª classe, praticante há 3 anos, dois campeonatos do mundo, uma medalha de ouro e uma de prata. “É a segunda vez que participo, sendo que a primeira vez, em 2015, fiquei em segundo lugar, com a prata, e agora em 2016 conquistei o ouro em primeiro lugar. Foi uma boa sensação, porque depois de ter perdido em 2015, desta vez fui com mais foco e venci, fiquei muito feliz. Gosto de Jiu-jitsu porque não é violento, é uma arte suave que ajuda na preparação física e molda as pessoas. O mestre aconselha-nos a treinar sempre com foco para ganhar sempre mais campeonatos”. 

Hernâni Airoso 11 anos de idade, 6ª classe, pratica há dois anos, venceu um campeonato mundial, uma medalha de ouro. “Com o Jiu-jitsu tornei-me mais calmo e mais disciplinado. Antes lutava muito nas ruas. Lá na competição cheguei com muito medo, mas o mestre disse para mostrar quem é o Hernâni, então venci os cinco adversários que tive pela frente. Não foi fácil, nem difícil, foi uma tarefa razoável. Prometo mais treino e continuar a vencer”. Sanderson Alexandre da Cruz Graça 9 anos de idade, 5ª classe, pratica há 2 anos, detentor de dois campeonatos mundiais e duas medalhas de prata. “No próximo ano prometo trazer o ouro, depois de ter conseguido dois segundo-lugares, 2015/2016. A arte do Jiu-jítsu é muito boa, exercita-se muito, perde-se peso e há outras vantagens, como a mudança de comportamento, pois eu era muito tímido e com os treinos passei a ser um pouco mais à-vontade”. 

“Não vou aos campeonatos por falta de divisas” As dificuldades na obtenção de cambiais também afectam o desporto. Walter Faustino revela que não tem participado em algumas competições internacionais por falta da moeda estrangeira. “O bilhete de passagem até posso comprar em kwanzas, mas a estadia e a alimentação só pode ser paga em moeda estrangeira, por isso, este ano ponderei várias saídas pela dificuldade de obter dólares”, confidenciou o atleta. 

Questionado sobre o apoio que recebe da recém-criada federação, Lobão adianta que a Federação de Jiu-jitsu e o Estado têm apoiado, mas o empresariado nacional também devia ajudar mais os atletas e associar as suas marcas aos eventos como recompensa. “O Jiu-jitsu é um desporto dispendioso, os equipamentos são caros, um kimono chega a custar 26 mil kwanzas, não conseguimos arcar tudo, principalmente com as viagens para as competições internacionais. No meu caso é menos complicado, porque sou conhecido, mas para as crianças e outros atletas é bem mais difícil, porque são anónimos”, alerta Walter Faustino.

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