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Luanda com água rara em época de epidemia e isolamento social

José Zangui
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Foto:
Carlos Aguiar

44% da população angolana não tem acesso a fontes de água apropriada para beber, sendo que apenas 32% das pessoas que vivem nas zonas rurais consomem água apropriada.

Das centralidades aos musseques (bairros suburbanos) de Luanda, a água está escassa e a resposta das autoridades ainda não se faz sentir, de acordo com citadinos ouvidos pela E&M, uma semana depois de o governador provincial de Luanda, Sérgio Luther Rescova, ter anunciado a disponibilidade de 20 camiões cisternas e algumas motorizadas para a distribuição de água  potável em áreas com sérios problemas e zonas onde o líquido não chega com facilidade.

Entretanto, grande parte dos entrevistados da E&M, em diferentes bairros de Luanda, continua a não ver a água prometida e arrisca-se ao contágio da Covid-19 ao percorrer até dois quilómetros à procura do “líquido precioso”.

No Município do Cazenga, Serafina João teve de sair da rua da Ambaca até à Urbanização da Marconi, à procura de água. Acordou às 6 horas, segundo disse, mas até às 11horas de quarta-feira, quando a abordámos, o posto de Distribuição de Água da Marconi estava fechado.

A alternativa, de acordo com Serafina, são os tanques construídos em quintais de moradores, muitos deles sem as devidas condições de tratamento da água, que cobram entre 70 a 125 kwanzas por 20 litros de água. Antes do Estado Emergência, a mesma quantidade custava 50 kwanzas.

A realidade desta interlocutora é a mesma vivida por Valentina de Carvalho. Moradora da Petrangol, afirmou que até cumpre as medidas de prevenção, mas todos os dias deixa o seu quintal à procura de água. " É um risco, mas não tem como evitar", admitiu.

A crise mundial, provocada pela pandemia da Covid-19, veio mostrar a fragilidade das administrações municipais, muitas sem capacidade para dar resposta ao que é básico para o cumprimento do confinamento social.

No Distrito Urbano do Hoji-ya-Henda, no Cazenga, os moradores mostraram-se que estão agastados com a Administração do Cazenga, porque as ligações domiciliares de água foram feitas em 2012, mas nunca funcionaram.

A E&M foi até a fonte da água, às girafas do Kifangondo, na fronteira entre Luanda e Bengo. Aqui, a cisterna de água, consoante a quantidade, varia de dez mil a catorze mil kwanzas e é revendida entre 14 e 25 mil kwanzas.

De acordo com motoristas contactados, nesta fase, o negócio tem tido muitas solicitações e, preferem abastecer os locais mais próximos, permitindo deste modo realizar mais viagens ao longo do dia, permitindo uma factura diária de até 80 mil kwanzas.

Recentemente, a Economia & Mercado publicou uma reportagem sobre a dificuldade de acesso à água em vários pontos de Luanda, tendo constatado que, além de escassez desse bem, há também um elevado índice de doenças no seio de comunidades que consumem água não potável.

Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) revelam que 44% da população angolana não tem acesso a fontes de água apropriada para beber, sendo que apenas 32% das pessoas que vivem nas zonas rurais consomem água apropriada, enquanto 66% da população urbana tem acesso ao líquido precioso devidamente tratado.