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O Chá de Capungopungo

Deslandes Monteiro
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Existem outros chás que têm sido bastante consumidos pela população, como o chá “Bulukutu”, que, tal como o Capungopungo, pode ser cultivado até em pequenos quintais.

Quando no passado mês de Julho o Ministro do Comércio e Indústria, Victor Fernandes, sugeriu que devemos ponderar a alteração da nossa dieta e incluir outros alimentos no pequeno-almoço, de modo a darmos primazia aos produtos nacionais que podem substituir o pão e outros produtos que na sua composição carecem de produtos importados, levantou-se uma onda de reprovação na sociedade civil, pois, trata-se de um produto muito “básico” e há muitos anos, nos centros urbanos, o pão é o alimento principal para a primeira refeição do dia. É, de facto, pouco imaginável que alguns restaurantes incluam no menu a batata doce, a mandioca e chá de folhas como alternativa à tosta mista e ao galão. Porém, como se pode facilmente constatar, esta mudança já começou no seio de muitas famílias, sobretudo nas zonas suburbanas.

O Chá de Capungopungo, antes desconhecido no “asfalto” mas agora bastante conhecido por boa parte da população, tem cada vez mais ganhado espaço na dieta dos angolanos, pois carrega consigo vários elementos que vão bem para além da simples conveniência.

O primeiro factor a ser assinalado é naturalmente o preço, pois é vendido em quantidades que variam dos 50 aos 100 AKZ e é acessível para boa parte dos angolanos, tendo em conta que com poucas folhas consegue-se fazer uma quantidade de chá suficiente para mais de uma refeição. O segundo factor é o benefício para a saúde, que se acredita ser consequência do consumo do chá. Benefícios como o combate de doenças renais, fraqueza, dores de cabeça, de estômago, tosses, gripes e até combate à COVID-19 são atribuídos a este chá, que reúne também outros factores como o sabor e o odor considerado por muitos agradável. Tal como este, existem outros chás que têm sido bastante consumidos pela população, como o chá “Bulukutu”, que, tal como o Capungopungo, pode ser cultivado até em pequenos quintais.

Ao Governo, cabe simplesmente a tarefa de criar as condições para que mais produtos possam ser produzidos localmente, com custo de produção e consequentemente de venda mais baixos

Este processo de transição da “alimentação importada” para a “alimentação nacional” tem decorrido de maneira subtil, sem que para o efeito o Estado tenha de criar normativas específicas que impedem a importação ou obrigam o consumo. Este processo automático de substituição é comum nas verdadeiras economias de mercado, onde a interferência política é praticamente imperceptível.

Com o passar do tempo, os consumidores automaticamente irão optar por produtos mais convenientes em termos de preço e benefícios, abandonando paulatinamente o consumo de bens importados. Ao Governo, cabe simplesmente a tarefa de criar as condições para que mais produtos possam ser produzidos localmente, com custo de produção e consequentemente de venda mais baixos, de modo a poderem não só ser comercializados internamente, mas também exportados para os países vizinhos, que possuem hábitos alimentares não muito diferentes dos nossos. O sucesso de produtos como o “Chá de Capungopungo” será uma consequência natural.