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Angola pouparia 20 milhões de USD por mês com o Angosat 1

Pedro Fernandes
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Foto:
DR

As expectativas criadas em torno do aparelho caíram por terra. O Angosat 1 apresentou falhas técnicas tão logo alcançou a órbita, segundo o discurso oficial.

Angola perde, mensalmente, entre 15 a 20 milhões de dólares norte-america­nos em mensalidades pagas à concessão de sinais de satélites pertencentes a ou­tros Estados. Em 2017, o país contaria com o seu próprio aparelho, tomando dian­teira no cômputo dos países africanos de expressão portuguesa e também junto da SADC, sem considerar a África do Sul. Porém, após o lançamento, o aparelho, num primeiro momento perdeu-se em órbita e, depois de localizado, apresentou anomalias no seu funcionamento. Os rus­sos prometem construir outro, pelo qual Angola vai aguardar durante mais cinco anos.

Desde sempre que Angola depende da prestação de satélites alheios e paga caro para manter os serviços de comunica­ções quase exclusivamente subordina­dos a estes aparelhos. A factura mensal por estes serviços roça os 20 milhões de dólares, segundo o Ministério das Teleco­municações e Tecnologias de Informação.

Quer dizer, o Governo, as empresas pro­vedoras de Internet, de telefonia, de TV e qualquer outro serviço que envolva comunicações tomam parte deste recibo e, no final de todo o processo, cobram o investimento ao cidadão, o último ponto nesta cadeia.

Entretanto, fonte ligada ao sector das te­lecomunicações afirmou à Economia & Mercado que numa altura em que o país está também a ser ligado por fibra óptica o investimento num satélite é “completa­mente inviável, a menos que se conside­rem os 300 milhões de dólares um fundo perdido”.

De resto, segundo outras fontes, foram os excessos nos gastos que levaram as auto­ridades angolanas a pensar na possibili­dade de criar o seu próprio projecto espa­cial e a abrir uma nova era no sector das telecomunicações no país. Para o efeito, solicitaram aos russos, que “andam nesta vida desde os anos 50 do século XX”, para executar o projecto avaliado em 300 mi­lhões de dólares. Na prática, os angolanos injectam a verba e os russos responsabi­lizam-se pelo fabrico, montagem, coloca­ção do aparelho em órbita e observação permanente (24h) durante dois anos, altu­ra em que a “RKK Energia”, empresa rus­sa responsável pela execução do projecto, entregará de modo definitivo a gestão do satélite aos mais de cem técnicos angola­nos treinados para o efeito.

Ministro José Carvalho da Rocha

Em Angola, na zona da Funda, a cerca de 90 quilómetros do centro de Luanda, foi erguido o centro de controlo deste projecto. Será nesse centro que irá trabalhar parte dos cem técnicos angolanos, manuseando o aparelho que deverá orbitar a 36 mil quilómetros da terra.

Erguido em 6.617 metros quadrados, o Centro de Controlo e Missão do Angosat 1 possui três pisos, um teleponto, parque de estacionamento com 50 lugares, áreas

verdes e outros espaços diversos. A es­trutura terá a missão de controlar, ras­trear e fazer a telemetria dos dados en­viados pelo Angosat 1 ou, melhor dizendo, Angosat 2.

O satélite angolano entraria em órbita no segundo semestre do ano passado, por via do Zenit, um foguete russo respon­sável pelo lançamento a partir da base de Baikonur, no Cazaquistão, primeira e maior base de lançamentos de foguetes do mundo, que está em operação desde 1950. No entanto, as espectativas criadas em torno do aparelho acabaram por cair por terra. O aparelho “apresentou falhas técnicas” tão logo alcançou a órbita, se­gundo o discurso oficial.

Hoje, cerca de 1740 satélites activos orbi­tam a terra, além de 2600 satélites “mor­tos” que estão a flutuar no espaço como sucata. Segundo o Ministério das Teleco­municações e Tecnologias de Informação, o satélite angolano até foi localizado, mas não responde. “Por isso, negociámos as compensações e o início da construção de um outro, embora a parte russa con­tinue a monitorar o satélite. Neste tipo de indústria é normal que isso aconteça. Há satélites que nem saem da plataforma, explodindo. Basta ver o que aconteceu nos últimos quatro meses nesta indústria. Nós conseguimos colocar o satélite em ór­bita”, justificou o ministro José Carvalho da Rocha em declaração pública.

Por ser uma empreitada que envolve custos financeiros muito avultados, a ges­tão do Angosat 1, quer dizer, Angosat 2, contratou uma seguradora internacional para salvaguardar o projecto, não tendo, no entanto, divulgado o valor da apólice.

As muitas espectativas que envolveram a entrada em funcionamento do Angosat 1 justificam-se por esta ser uma expe­riência nova para Angola e por abrir a possibilidade de se avaliar a redução dos custos nas telecomunicações do país. Ain­da recentemente o Instituto Nacional das Comunicações (INACOM) anunciou a subi­da dos custos de chamadas telefónicas de 7,2 kz para 10 kz por Unidade Tarifária de Telecomunicações (UTT).

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