3
1

Aumento das trocas comerciais, uma boa notícia?

Deslandes Monteiro
1
2
Foto:
ISTOCKPHOTO

Numa análise mais detalhada, saltam logo à vista alguns detalhes pouco confortantes. No total das exportações, o petróleo ganhou um maior peso, representando agora 95,3% das exportações.

A recente publicação do boletim trimestral do Instituto Nacional de Estatísticas, evidenciando um aumento considerável das trocas comerciais angolanas com o exterior, serviu para confirmar alguns indicadores que já tinham sido antecipados pelas empresas angolanas, que nos últimos meses demonstram uma maior tendência e capacidade para importar bens e serviços do exterior.

Nos números apresentados, em que a balança comercial apresenta um saldo positivo de 4,55 biliões de Kz, as exportações registaram um aumento de 42,7%, enquanto as importações registaram um aumento de 15,8%. É também possível verificar que a Ásia continua como a principal protagonista nas exportações angolanas, ocupando 73,4% da quota de mercado, com a Europa em segundo lugar, adquirindo 16,9% das exportações angolanas, e o continente africano em terceiro, com a módica percentagem de 3,4%. No campo das importações, a Europa ocupa o lugar de maior fornecedor de Angola, com quase metade da quota de mercado (46,5%), Ásia em segundo lugar (32,8%) e África em terceiro lugar (7%).

Porém, numa análise mais detalhada, saltam logo à vista alguns detalhes pouco confortantes. No total das exportações, o petróleo ganhou um maior peso, representando agora 95,3% das exportações, com os diamantes a representar 3,8% do total, e os outros produtores a ocuparem somente 0,9% do total das exportações, evidenciando uma diminuição da capacidade de diversificação da exportação.

O aumento das importações, causado sobretudo pelo aumento do preço do petróleo e consequente valorização do Kwanza, apesar de todos os aspectos positivos, pode representar um factor de retrocesso para a produção nacional

Mais preocupantes ainda são os dados relativos à importação. Os bens intermédios, representados essencialmente por matérias-primas, sofreram uma redução, com uma variação homóloga de -6%. Em outras palavras, se de um lado a capacidade de importar bens e serviços tem aumentado, do outro, esta importação tem sido sobretudo de bens e produtos finais, prontos para o consumo, com uma diminuição na importação de bens úteis para a produção local, neste caso também impactando negativamente na diversificação da economia, grande objectivo do Executivo angolano.

O aumento das importações, causado sobretudo pelo aumento do preço do petróleo e consequente valorização do Kwanza, apesar de todos os aspectos positivos, pode representar um factor de retrocesso para a produção nacional, pois o empresariado local, estimulado pela facilidade da importação e pela maior competitividade dos preços estrangeiros, pode optar cada vez mais pela conveniência da importação, desestimulando as empresas que têm investido na produção interna.

Para combater esta tendência, é necessário que se reforce a aposta nas políticas de estímulo da produção nacional, sobretudo no âmbito financeiro e tributário, sem transcurar o campo formativo, para que a produção interna, para além de valorizada, seja premiada.