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Como o showbiz e a restauração em Angola foram abalados pela Covid-19

A indústria do turismo e entretimento foi a primeira a fechar, devido à pandemia da Covid-19, e será a última a abrir. Os restaurantes já reabriram, mas se vão ressentir do abalo por mais tempo.

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Ao longo do Estado de Emergência que vigorou em Angola, para prevenir a contaminação pela pandemia da Covid-19, várias actividades que envolvem o grande público tiveram que cessar, por conta do distanciamento social que é recomendado para se evitar a infecção pelo novo coronavírus. Como resultado, o showbiz, assim como a restauração, sofreram “baixas financeiras”, sendo que, actualmente, a continuidade de muitos empregos está ameada.

O empresário Rui Silva, proprietário do Clube S, revelou, recentemente, que paga ao Estado 11 milhões de kwanzas de imposto, mensalmente. Com apenas o serviço de take-away a funcionar até a declaração da Situação de Calamidade Pública, e tendo um encargo com salários de 150 colaboradores fixos, mostrou-se apreensivo em relação à continuidade do negócio.

Rui Silva, empresário

“A manutenção desta situação pode levar à ruptura da tesouraria da empresa, pondo em causa a sua sustentabilidade. Ou, por outro lado, caso a empresa não tenha mais capital, não efectuará pagamento ao pessoal e aí os colaboradores vão começar a passar dificuldades”, expressou o gestor, cuja empresa actua na área da restauração, produção de eventos e entretenimento nocturno.

Por sua vez, Karina Barbosa, empresária e apresentadora de TV, partilhou que a moda, sector em que actua, está completamente parada, pois não se podem, por ordem do Estado,  realizar desfiles ou apresentações públicas de qualquer natureza, nem sessões fotográficas ou gravação de spots de publicidade ou filmes institucionais.

O evento “Moda Luanda - 23ª Edição”, por exemplo, que deveria ter acontecido em Março, teve que ser adiado indefinidamente, deixando cerca de 18 criadores de moda nacionais sem a possibilidade de apresentarem as suas novas colecções, que já estavam prontas para os desfiles. O “Globos de Ouro Angola 2020”, que estava previsto para o dia 3 de Maio, teve igualmente que ser cancelado sine die. Trata-se, só na STEP, empresa que dirige, de cerca de 60 manequins, 50 assistentes de protocolo, 30 aderecistas, 15 assistentes de produção e 10 administrativos que totalizam 165 pessoas sem trabalho há mais de 2 meses. Entretanto, se continua com postos de trabalho indirectos, afirmou, deve-se falar no dobro ou triplo de trabalhadores parados e a maior parte deles sem salário, por terem vínculo permanente.

Karina Barbosa, empresária

“Isto sem falar das empresas e demais profissionais que são subcontratadas por nós, tanto para o Moda Luanda como para os Globos de Ouro. São centenas de pessoas, profissionais de eventos e do entretenimento que viram os seus rendimentos reduzidos a zero com o cancelamento de eventos e shows”, reforçou.

Para defender os interesses do sector, criou-se, recentemente, a Associação de Profissionais e Produtores de Eventos & Cultura (APPEC), que tem o papel fundamental de apresentar aos órgãos do Governo os dados reais do que representa o sector dos eventos, entretenimento e cultura em Angola.

“Quantas empresas e profissionais há de facto a operar activamente no mercado, desde técnicos de palco, som, luz, leds, cenários, artistas, produtores, promotores, músicos, coristas, actores, artistas plásticos, DJs, bandas, roadies,  seguranças, bailarinos, grupos tradicionais, maquilhadores,  cabeleireiros, agentes, stylists, assessores, enfim?”, questionou-se Karina Barbosa, afirmando que são centenas de empresas que empregam milhares de pessoas, e não apenas os cantores mais famosos que são a minoria e simplesmente o rosto mais visível de uma indústria de muitos profissionais, mais ou menos conhecidos, e alguns completamente anónimos, mas que também fazem parte da população de Angola.

Entretanto, os músicos não ficam isentos de prejuízos, e a confirmação disso vem do cantor e instrumentista Jorge Semedo, membro dos Impatus 4. O artista acredita que, obviamente, “todos perdem” com a crise provocada pela Covid-19. Primeiramente, detalhou, as bandas, depois a indústria. Por outro lado, acrescentou, “as coisas têm sido muito complicadas para as bandas, mesmo antes da pandemia, pois os promotores de eventos, para terem mais lucros e menos gastos, preferem que os artistas/cantores façam as suas performances em playback, prejudicando grandemente as bandas. Somos a classe (bandas) mais afectada na indústria”, afirmou.

Jorge Semedo entende que, quanto à questão dos direitos autorais, apesar de haver algum esforço por parte de alguém ou do próprio Ministério da Cultura, parece-lhe que está a haver uma dificuldade tremenda em avançar.

“A situação está de tal forma caótica que chego até a pensar que os autores são menosprezados, que se acaba por passar a imagem de que quem faz tudo são os executantes (cantores) e os autores não existem. Aliás, a indústria hoje é só feita de cantores, pois são os que aparecem e recebem todos os louros e ganhos, em detrimento dos autores das obras”, explicou.

Eventos dinamizam turismo local

O que se pode dizer das actividades fora de Luanda? Que implicações podem surgir nessa altura de confinamento, na força de trabalho local? Quem dá respostas a essas questões é o produtor Hélio Santos, proprietário da 3XU eventos.

Segundo a fonte, que reside em Benguela, onde tem a sede da empresa, os eventos têm servido para dinamizar o sector do turismo local. “Servem como argumento para sustentar uma deslocação às províncias, o que dinamiza o sector”. Entretanto, num momento de confinamento, apreciou o responsável, onde as deslocações não estão permitidas, os eventos não estão permitidos, vários sectores pararam a fundo, deixando muitas pessoas sem qualquer tipo de rendimento e/ou subsidio. “Grande parte da nossa força de trabalho são prestadores de serviços eventuais. Sem eventos, muita gente deixou de ter o seu ganha-pão. Se pensarmos no exemplo dos casamentos, quantos temos em Angola num sábado?  Quantos DJs deixaram de tocar nesses casamentos  e ficaram  sem os seus rendimentos?”, questionou-se.

E falando em Djs, Paulo Alves revelou que, nas primeiras três semanas de Estado de Emergência, teve que cancelar treze eventos, incluindo apresentações marcadas para Jordânia, Alemanha e Portugal.

“Surgem grandes desafios, porque daqui para frente não se sabe como é que as coisas serão. Para já, não sabemos quando é que voltam os eventos, e quando é que abrem as discotecas. Fica aqui uma dúvida no ar, e claro, a nossa preocupação como DJs nessa situação”, disse o também produtor de eventos, que partilhou que tem mantido alguns serviços mínimos, desde o programa de rádio que continua a ser feito, mas a partir de casa.

No entanto, Paulo Alves pensa que, de certa forma, a Covid-19 vem mudar a consciência de certas pessoas, e isso levará tempo para voltar à normalidade. “À noite, no período pós Covid-19, os eventos não serão os mesmos”, afirmou.

Teatro e literatura esquecidos

Ao nível do teatro, em Angola tido como um dos parentes pobres do sector da Cultura, o produtor Walter Cristóvão lamentou o abandono a que foi atirada essa arte, muito antes da crise causada pela pandemia da Covid-19. “A situação do teatro está caótica. Estagnada. Não há produção nesta vertente”, deplorou.

Por seu turno, a escritora e psicóloga Kanguimbu Ananaz, que se afirma uma pessoa ligada ao empreendedorismo cultural, expressou que as coisas na sua área tornaram-se muito complicadas, porque o seu trabalho é lidar diariamente com pessoas. Logo, esse período de isolamento que se vive estagnou muitos dos seus projectos e de empreendedores espalhados por todo o mundo. “O momento impõe criatividade, rotular a forma de trabalhar e adaptar-se ao novo contexto. Somos obrigados a criar novas formas de trabalhos e fazer bom uso das redes sociais para vender os produtos”.

Por exemplo, citou, teve de criar um grupo online e estender os seus habituais serviços, dando aulas de literatura online e orientação psicológica. Também convidada por um grupo de sessenta jovens denominados Café Online, coordenado pelo jovem António Novais Fortunato, onde se debruça sobre a historiografia literária angolana.

Aproveitou o Estado de Emergência, entretanto, para estabelecer parcerias com outros promotores culturais.

Este artigo será aprofundado na edição digital da E&M referente ao mês de Julho. Para já, aproveite ler a edição de Junho, disponível em site e no aplicativo E&M para Android.

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