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Costumes culturais nocivos à dignidade da mulher

Cláudio Gomes
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Foto:
ISTOCKPHOTO

Todos os dias, em todo o mundo, centenas de milhares de mulheres e meninas são submetidas a práticas tradicionais que prejudicam a sua saúde física, psicológica ou emocional.

A Mutilação Genital Feminina (MGF), o casamento infantil e a preferência de pais por filhos homens em detrimentos de meninas são três das 19 práticas consideradas nocivas e que mais preocupam o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) em Angola. Lançado no início de Julho, em alusão ao “Dia Mundial da População”, o relatório, intitulado “Situação da População Mundial 2020”, salienta que tais “práticas violam gravemente os direitos humanos e a dignidade da mulher ao nível global”, situação que de maneira cíclica condiciona a sua emancipação.

Para erradicar estas práticas, de acordo a agência das Nações Unidas para a População, são necessários 3,4 bilhões de dólares devidamente empregados por ano, em média, de 2020 a 2030, para acabar com o sofrimento de cerca de 84 milhões de meninas.

Visão antropológica

O relatório do UNFPA refere que actualmente cerca de 200 milhões de mulheres e meninas vivas, em todas as regiões do mundo, são afectadas directa ou indirectamente com a MGF. O mesmo documento salienta também que cerca de 650 milhões de meninas e mulheres vivas hoje casaram-se quando ainda eram crianças, o que as remete a várias privações como o acesso à escola. Em todo mundo, segundo cálculos da ONU, por dia, acontecem cerca de 33.000 casamentos infantis.

De acordo com a antropóloga Ana Maria de Oliveira, é necessário, primeiramente, situar a prática no seu contexto sociocultural e religioso. Desta forma, entende a especialista, evita-se a sua transposição generalizada para realidades onde, por natureza, a relação da pessoa humana como seu próprio corpo assume dinâmicas marcadamente diferenciadas. A profundidade da remoção parcial ou total dos órgãos genitais femininos externos é uma prática que remonta da ancestralidade, segundo a pesquisadora, e tem justificação no lugar reservado à mulher na família e na sociedade.

“Não é uma prática comum nas comunidades socioculturais angolanas, situando tais ocorrências em casamentos mistos, fruto da imigração, e que por esse facto, as filhas desses casamentos estão a elas sujeitas, fruto dos empréstimos culturais daí decorrentes”, esclareceu a docente universitária.

Baseando-se em estudos por si realizados, Ana Maria de Oliveira disse que a Mutilação Genital Feminina remete para duas práticas com repercussões físicas e psicológicas marcantes. Trata-se da excisão e da infibulação.

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