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Covid-19: Impactos da pandemia e cenários de um novo paradigma, segundo Abdul Santos

O especialista é de opinião que o período pós-pandemia da Covid-19 será de uma maior presença dos estados na economia e nas emrpesas, sendo que a prioridade serão so mercados nacionais.

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Fotografia
:
Carlos Aguiar

Ainda não é possível saber como será o mundo após a pandemia da Covid-19, segundo o consultor e expert em negócios de telecomunicações Abdul Santos, pois “as variáveis são múltiplas e em permanente mudança”. Entretanto, o analista considera que, com base nas “tendências e acontecimentos anteriores à pandemia, e como reagem no princípio da crise as principais economias, pode ser feito um exercício de prognóstico das mudanças com maior probabilidade de acontecer e com maior impacto negativo sobre os planos nacionais previamente concebidos para o desenvolvimento e satisfação das necessidades dos cidadãos angolanos”.

A Covid-19 está a funcionar como um acelerador de tendências e revelador de realidades menos boas, de acordo com Adbul Santos, sendo que, para o caso de Angola, representa “o fim do sonho e choque com o pesadelo da realidade”.

“Mesmo antes da pandemia da Covid-19, a maior economia do mundo, os EUA, opunham-se à globalização e à expansão do comércio mundial centrado na China.

Entretanto, ao nível global, refere o especialista numa análise feita para a Economia & Mercado, intitulada “Impacto da Pandemia e Cenários do Novo Paradigma”, além da queda dos preços das matérias-primas, em particular do petróleo, assiste-se à “redução do papel da China como fábrica do mundo e motor do comércio mundial”, assim como à queda abrupta dos mercados financeiros nos EUA e à falta de coesão na União Europeia.

“Mesmo antes da pandemia da Covid-19, a maior economia do mundo, os EUA, opunham-se à globalização e à expansão do comércio mundial centrado na China. O Presidente Donald Trump, com o seu slogan ‘America First’, estabeleceu a estratégia de negociar acordos bilaterais de comércio em detrimento de acordos alargados e no âmbito da OMC (Organização Mundial do Comércio). Com pandemia da Covid-19, a OMC prevê uma redução de 13% a 32% do comércio mundial em 2020”, escreveu Abdul Santos que acredita que “a pressão externa para criar barreiras ao comércio centrado na China será maior e mais alargada, pois outras grandes economias irão seguir os EUA, como é o caso do Japão que aprovou uma verba de 2.000 milhões de USD para ajudar empresas japonesas a saírem da China”.

Ou seja, na opinião do especialista, “os grandes do mundo aperceberam-se que a concentração da produção industrial na China é boa para os grandes grupos financeiros internacionais, mas pode não ser tão boa para a sua segurança nacional. Haverá mais países e líderes a agirem como o Japão e os EUA, a taxarem mais as importações chinesas e a incentivarem a saída das suas empresas da China”.

“Mudança de mentalidade” e criação de mercados nacionais

Para Abdul Santos, em Angola, a pandemia da Covid-19 “revelou de forma nua e crua a realidade chocante do desperdício dos recursos” provenientes “do boom do petróleo para implementação da estratégia de ‘acumulação primitiva de capital’”, que serviu apenas “para pouco mais do que realizar os sonhos fúteis e megalómanos de uma meia dúzia de privilegiados e iluminados em transe”.

No entanto, critica, “agora que os espaços aéreos estão fechados, os aviões não cruzam fronteiras, não são possíveis missões privadas de urgência de saúde, o socorro está limitado ao que plantámos no nosso pedaço de chão, ou seja, quase nada”.

Para Abdul Santos, “os recursos públicos deverão ser canalisados não apenas para construção de infra-estruturas públicas, mas também para criação de empresas capazes de gerar receitas e entregar bens e serviços aos consumidores nacionais e regionais.

Ainda na mesma reflexão partilhada com a E&M, o especialista defendeu que a construção de mercados é fundamental para o desenvolvimento das sociedades. “Como referiu Philipe Kotler, um guru do marketing, ‘enganam-se aqueles que pensam que os países se desenvolvem com fábricas. Os países desenvolvem-se com mercados’. Não basta produzir internamente, é preciso criar mercados para circulação dos produtos/serviços e do dinheiro. O mercado deve ser o critério da verdade sobre o desempenho das empresas, mas independente dos critérios políticos. Será preciso um esforço e planos adequados para desenvolvimento de mercados para os produtos e serviços necessários para a satisfação em primeiro lugar dos consumidores nacionais e regionais”.

Acrescentou ainda que o esforço para a criação de mercados, num cenário pós-pandemia da Covid-19, “só terá resultado com a participação do Estado no capital das principais empresas”, em particular “as empresas clusters que serão o suporte para o desenvolvimento do ecossistema dos mercados nacionais”.

Para Abdul Santos, “os recursos públicos deverão ser canalisados não apenas para construção de infra-estruturas públicas, mas também para criação de empresas capazes de gerar receitas e entregar bens e serviços aos consumidores nacionais e regionais, uma tarefa que não poderá ser deixada apenas nas mãos dos poucos empresários privados nacionais ou a mercê da vontade de potenciais investidores estrangeiros que se multiplicam em visitas mas não concretizam nada. A pandemia irá forçar a mudança do paradigma de ‘menos Estado’, para ‘mais Estado’ na economia e nas grandes empresas”, defendeu.

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