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CPLP: inovação ou morte!

Realizou-se na passada semana, a segunda cimeira empresarial da CPLP, em São Tomé e Príncipe, com o objetivo de “fortalecer a cooperação e reforçar negócios” ao abrigo do quarto pilar da CPLP.

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Realizou-se na passada semana, a segunda cimeira empresarial da CPLP, em São Tomé e Príncipe, com o objetivo de “fortalecer a cooperação e reforçar negócios” ao abrigo do quarto pilar da CPLP que é o económico e da cooperação empresarial. Presentes estavam 150 empresas e empresários de toda a comunidade CPLP. Alguém deu por isso?

Primeiro ponto: creio que já todos estivemos em festas de casamento, de batizado ou até funerais com mais empresários e empresas presentes, mesmo não sendo essa a intenção. A quem, da CPLP, organizou este evento, deixo aqui o meu cartão vermelho.

Segundo ponto: com exceção dos portugueses e dos angolanos (e dos anfitriões, claro), para qualquer outro país-membro é um verdadeiro quebra-cabeças chegar a São Tomé...e chegar ao Príncipe ainda pior. A quem, na CPLP, tem responsabilidade na área da mobilidade entre os estados-membros e de facilitar o seu enquadramento jurídico-comercial respetivo, deixo aqui o meu cartão escarlate pelos 26 anos de total fracasso nesta matéria. Com ou sem Covid, pesquisar e encontrar viagens plausíveis entre Bissau e São Tomé, entre Praia e Maputo, entre Luanda e Malabo ou entre São Paulo e Díli é tarefa dantesca. E sem um sistema de mobilidade eficaz de pessoas e mercadorias é impossível estimular qualquer cooperação por mais que falemos a mesma língua. Pesquisem igualmente o enquadramento jurídico dos transportes e das empresas de transporte dentro do espaço económico CPLP e não se espantem que, na segunda cimeira empresarial em 26 anos de história, o resultado seja esse: 150 empresas. Não são 150 mil empresas ou 150 mil empresários. São 150 mesmo, sem mais zeros à direita... apenas à esquerda.

A CPLP tem este problema simultaneamente grave e sério: não se impôs na cena internacional e muito menos se soube impor por entre os seus estados-membros. Falou-se dela brevemente (e pelos piores motivos) aquando da adesão da Guiné Equatorial. A CPLP paga o preço de uma organização que veio ocupar um espaço teórico com pouco relevo além-fronteira linguística e de uma organização que não soube inovar nem acrescentar algo de diferente à arena global. Em vez de unificar e projetar ideias únicas e arrojadas em torno de uma suposta união e de um facilitismo baseados na lusofonia, enveredou claramente por um caminho demasiado institucional que apenas revela as incapacidades, fragilidades, disfunções e falta de projeção da sua união cooperativa. Falamos todos português, sim... Mas e agora, que fazer em concreto com isso? Como ter voz e encontrar um lugar cimeiro próprio e exemplar ao lado de uma União Africana, de uma Mercosul, de uma ASEAN ou de uma União Europeia?

A linha estratégica que preconizo para a CPLP, para além da relativa aos transportes e mobilidade, é a da diplomacia ecológica. E diplomacia ecológica não se confunde com uma alínea perdida chamada “rede ambiente” nalgum pilarzinho do site da CPLP. Começa por perguntar: o que mais temos em comum para além da língua? Muita costa e muito mar. Somos todos países com uma larga e extensa orla marítima. Alguns são apenas ilhas, outros têm diversas ilhas. A economia do mar é, por ventura, a menos explorada e a que menor peso tem. Para dar o exemplo de Portugal, um dos países com maior Zona Económica Exclusiva do mundo, o peso do mar na economia e no emprego não vai além dos 4%. A exploração sustentável dos oceanos e a sua despoluição são dos temas menos conhecidos e menos liderados no palco internacional. A Amazónia, o chamado pulmão do mundo, fala português e é território CPLP – o que pode fazer a CPLP sobre isso? Moçambique é dos países mais fustigados por catástrofes climáticas com tudo o que isso representa em termos de reconstrução e seguradoras. O que pode a CPLP ensinar ao mundo sobre isso? Cabo Verde vive, desde sempre, com pouca chuva, pouca água doce e com pouca agricultura, apesar das necessidades sempre crescentes que levam a utilizar cada vez mais técnicas de dessalinização da água. Como fomentar a investigação e produção científica de melhores soluções nesta matéria tão importante para o futuro da humanidade? Timor poderia ser utilizado como um laboratório de reconstrução ecológica de um país em ruínas e onde (quase) tudo precisa de ser feito de raiz. Porque não se inspira a CPLP na ilha do Príncipe que, pelas mãos do sul-africano Mark Shuttleworth, é Reservada Biosfera Mundial da Unesco desde 2012 numa simbiose única entre sustentabilidade, progresso, ecoturismo e desenvolvimento económico-social de toda uma população projetada para o futuro e eleva isso para um plano governativo?

E se CPLP passasse a querer dizer “Como Prosperar (no mundo) em Língua Portuguesa”, não estaríamos todos muito melhor?

 

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