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O ‘corona’ está forte, mas há mais medo da fome

Uma ronda por quem vende nos mercados reflecte um país mais pobre. Tudo por causa de um vírus temido, mas não mais que a miséria que se arrasta.

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Hoje há vendedores à espera de compradores que nunca chegam, jovens que perderam a fonte de rendimento para ir à escola e portas que se fecham na cara. Ainda assim, ouve-se que “isto vai passar”.

Carlota Mondlane, 59 anos, passou os últimos dois anos a vender limão porta a porta nos subúrbios de Maputo, para fugir da fome. Mas, desde que o novo coronavírus chegou, há sete meses, falta-lhe dinheiro para pôr comida à mesa, porque os clientes não querem mais receber visitas de “estranhos”.

“As pessoas pararam de abrir-me as portas. Eu batia e ninguém atendia. Têm medo da doença”, lamenta a comerciante informal, enquanto reorganiza os seus produtos na sua pequena banca improvisada no meio da Praça da Juventude, nos subúrbios de Maputo.

Com as portas a fecharem-se na sua cara, Carlota Mondlane preferiu, hoje, sentar-se num ponto específico e adicionou à sua pequena banca limão, tomate, repolho e cebola, tudo na ambição de conseguir sustento para os filhos e para o marido, antigo militar, desempregado.

Os desafios que Carlota Mondlane enfrenta não são uma novidade nos subúrbios de Maputo, onde, mais do que em meras abstracções numéricas, o impacto da crise provocada pelo novo coronavírus se reflecte na falta de comida no prato para as famílias mais vulneráveis. Com parte considerável das pessoas a viver na miséria ou no seu limiar, o recurso ao comércio informal para fugir da pobreza é comum em mercados da periferia de Maputo. Mas, mesmo assim, a “vida não está fácil” na capital moçambicana.

“Estamos sem o que comer”, reclama Mónica Macuácua, outra comerciante ambulante que há 10 anos “foge” da polícia municipal, no interior do mercado Grossista do Zimpeto, com os seus sacos de feijão e amendoim sobre a cabeça. “Esta situação está muito difícil”, declara.

As bancas do mercado grossista do Zimpeto, famosas por terem quase sempre batatas e cebolas frescas, ressentiram-se do impacto das restrições provocadas pelo novo coronavírus, uma vez que o mercado interno não consegue alimentar um dos principais pontos de abastecimento da capital moçambicana. Num momento em que as previsões de crescimento para este ano foram revistas de 2,2% para 0,8%, a reabertura total das fronteiras com a África do Sul é apontada pela Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), maior organização patronal, como fundamental para a retoma da economia pós-Covid-19 no país, mas até agora tudo é uma incógnita, com a situação da pandemia na maior economia regional a oscilar.

Leia o artigo completo na edição de Março, já disponível no aplicativo E&M para Android e em login (appeconomiaemercado.com).

‘Corona’ is strong, but fear of hunger is stronger.

A visit to the people selling in the markets shows that the country is poorer. This is because of a virus that is feared, but even more because of a lingering misery.

Today, salespeople are waiting for customers who never arrive, young people have lost their source of income to go to school and doors are slamming in their faces. One still hears the promise “we shall overcome it”.

Carlota Mondlane, 59, has spent the last two years selling lemon door to door, in the suburbs of Maputo, to escape hunger. But, since the emergence of the novel coronavirus, seven months ago, she lacks money to put food on the table, because customers no longer want to receive visits from “strangers.”

“People no longer open their doors to me. I have knocked and nobody answered. They fear the disease” complains the informal salesperson, while reorganizing her products on a small, improvised, stand in the middle of Praça da Juventude, in the suburbs of Maputo.

With the doors slamming in her face, today, Carlota Mondlane chose to sit at a specific location and added lemon, tomato, cabbage, and onion to her small stand; she does it all to provide for her children and husband, a former military and currently unemployed.

The challenges that Carlota Mondlane faces are not new in the suburbs of Maputo, where, more than mere numerical abstractions, the impact of the crisis caused by the novel coronavirus is reflected on the lack of food for the most vulnerable families. With a considerable number of people living in poverty or on the brink of it, using the informal trade to escape poverty is common in markets at the outskirts of Maputo. But even so, “life is not easy” in the Mozambican capital.

“We have nothing to eat”, complains Mónica Macuácua, another street trader who, for 10 years now, “runs away” from the municipal police, inside wholesale market of Zimpeto, while carrying her bags of beans and peanuts on the head. “This is a very difficult situation”, she declares.

The stands at the wholesale market of Zimpeto, famous for almost always having fresh potatoes and onions, felt the impact of the restrictions caused by the novel coronavirus, since the domestic market cannot feed one of the main supply points in the Mozambican capital. At a time when the projected growth for this year were revised from 2.2% to 0.8%, the Confederation of Economic Associations of Mozambique (CTA), the largest employers’ organization, indicates that the full reopening of the borders with South Africa is critical to the recovery of the country’s economy, in a post-Covid-19 period, but, so far, everything is uncertain, with an oscillating pandemic situation in the largest regional economy.

Read the full article in the March issue, now available on the E&M app for Android and at login (appeconomiaemercado.com).

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