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O Grito de Madagáscar

Um alerta da ONU refere que Madagáscar é o primeiro país onde se está a passar fome em consequência de alterações climáticas.

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Fotografia
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Carlos Aguiar

Numa terra outrora fértil, as secas tornaram impossível plantar qualquer coisa, crescem apenas cactos. Não chove o suficiente no Sul da ilha para irrigar as terras e dar de beber à população.

Já me referi neste espaço ao sério problema que é a desertificação do Sul de Angola, consequência de alterações climáticas, manifestadas, sobretudo, em amplitudes térmicas diárias cada vez mais acentuadas. O território é a plataforma de vida de qualquer nação e, por isso, preservar o território é das obrigações mais sagradas que o ser humano devia ter em mente. Há quem diga que o ser humano destruiu mais em 100 anos do que em milhares de anos de existência como ser inteligente.  

O que está a ocorrer em Madagáscar me faz lembrar o que aconteceu na Ilha de Páscoa, no Oceano Pacífico. Segundo a investigação mais consensual, essa ilha sucumbiu ao colapso ambiental. Jared Diamond, no seu livro intitulado “Colapso”, aponta o que aconteceu à Ilha de Páscoa como o exemplo mais vivo do que pode acontecer a uma sociedade que explora demais os seus recursos. Os habitantes da ilha, os Rapa-Nui, migrados da Polinésia antes do século X, chegaram a constituir uma sociedade próspera, numa ilha completamente verde. Mas, o aumento da população e a obsessão em construir monumentos cada vez maiores levaram à completa desmatação da ilha, à guerra fratricida, à fome e finalmente ao colapso total. Será que Madagáscar está condenada a ser a Ilha de Páscoa do Índico?  

As desmatações que ocorreram no longo período que se seguiu à independência de Angola, sobretudo no Centro e Sul, não deixam de nos fazer lembrar os Rapa-Nui a desmatar a sua ilha, não só para obter lenha e carvão vegetal, como também para fazer padiolas gigantescas para transportar e erigir estátuas inúteis. E também não podem deixar de nos fazer lembrar a exploração de florestas centenárias na Ilha de Madagáscar, sem qualquer plano de sustentação.

Invocar o que acontece na Ilha de Madagáscar, como o que aconteceu na Ilha de Páscoa, devia servir para consciencializar as elites angolanas para a necessidade de uma verdadeira cultura de preservação do ambiente, não só no vasto interior do país, mas também nas grandes cidades, onde a voragem imobiliária tem destruído quase tudo quanto é verde.

Em conclusão, a actual geração devia preocupar-se em deixar um território ambientalmente mais próximo daquele que herdou dos antepassados. Para isso, são precisas acções concretas, a começar por um plano de reflorestamento do Sul de Angola.

Leia o artigo completo na edição de Setembro, já disponível no aplicativo E&M para Android e em login (appeconomiaemercado.com).

The Cry From Madagascar

A UN alert states that Madagascar is the first country where famine is occurring as a result of climate change. In a once fertile land, droughts have made it impossible to grow anything but cacti. Not enough rain falls in the south of the island to irrigate the land and provide drinking water for the population.

I have already discussed here the serious problem that is the desertification of southern Angola, a consequence of climate change, manifested mainly through increasingly high daily temperatures. Territory is the platform of life for any nation and, therefore, preserving it is one of the most sacred obligations that human beings should have in mind. Some say that humans have destroyed more in 100 years than in thousands of years of existence as intelligent beings.

What is happening in Madagascar reminds me of what happened in Easter Island, in the Pacific Ocean. According to the most consensual research, this island has succumbed to environmental collapse. In his book entitled “Collapse”, Jared Diamond points to what happened to Easter Island as the most vivid example of what can happen to a society that overexploits its resources. The island’s inhabitants, the Rapa-Nui, who migrated from Polynesia before the 10th century, once formed a prosperous society on a completely green island. But the increasing population and the obsession to build bigger and bigger monuments led to the complete deforestation of the island, fratricidal warfare, famine, and finally total collapse. Is Madagascar doomed to be the Easter Island of the Indian Ocean?

The deforestation that occurred in the long period following the independence of Angola, especially in the center and south of the country, reminds us of the Rapa-Nui deforesting their island, not only to obtain firewood and charcoal, but also to make giant vessels to transport and erect useless statues. They also remind us of the exploitation of centuries-old forests in the island of Madagascar without any plan to sustain them.

Invoking what happens in Madagascar, and what happened in Easter Island, should make the Angolan elites aware of the need for a true culture of environmental preservation, not only in the vast interior of the country, but also in the large cities, where real estate voracity has destroyed almost everything that is green.

In conclusion, the current generation should work to leave behind a territory environmentally closer to the one it inherited from its ancestors. To achieve this, concrete actions are needed, starting with a reforestation plan for southern Angola.

Read the full article in the Setember issue, now available on the E&M app for Android and at login (appeconomiaemercado.com).

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