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O Regresso da Doença Holandesa

José Gualberto Matos
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A expressão doença holandesa foi cunhada no século passado pelo semanário The Economist para descrever o que se passou nos Países Baixos quando descobriram Gás Natural...

Os países em desenvolvimento acabam quase sempre por recorrer à ancoragem cambial para controlar a inflação, instrumento que amarra o preço do dinheiro ao de um país com nível geral de preços estável. No mundo lusófono, temos os exemplos de Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe. A ancoragem cambial pode ser associada à doença holandesa. Este é o mote para esta nota.  

Foi o efeito de ancoragem cambial que permitiu passar a inflação em Angola de 15,3 % em 2010 para 7,5 % em 2014. Uma âncora criada pela abundância de divisas que se registou nesse período. Tão logo o preço do petróleo descambou, a âncora soltou-se e a inflação descolou.

Não foi só a perda da ancoragem cambial que levou ao descontrolo da inflação a partir de 2015. Foi também a exuberância irracional que se viveu na década anterior, caracterizada pelo desbaratamento da receita petrolífera. Depois, sem a abundante receita do petróleo, foi o contrair apressado de dívida.  

A inflação acumulada de Janeiro de 2010 a Dezembro de 2014 foi de 62 %. Por sua vez, a variação na taxa de câmbio foi de apenas 9 % em igual período. Mesmo considerando alguma perda de poder de compra do dólar no mercado internacional, teremos tido, nesse mesmo período, uma apreciação relativa do Kwanza próxima dos 40 %.  

Este pequeno exercício mostra que utilizar a ancoragem cambial para controlar a inflação pode ter como efeito colateral a doença holandesa, típica de economias com predominância extractiva e que se manifesta na sobrevalorização da moeda nacional, tornando as importações mais baratas e retirando competitividade à produção nacional.

A expressão doença holandesa foi cunhada no século passado pelo semanário The Economist para descrever o que se passou nos Países Baixos quando descobriram Gás Natural, cuja exportação provocou a sobrevalorização do Florim, ao ponto de arruinar a  produção de outros bens e serviços.

O ano 2021 inicia um novo período de forte apreciação do Kwanza, cujo efeito na inflação poderá tardar em acontecer. O Kwanza apreciou perto de 40% até ao final do primeiro trimestre de 2022, enquanto a inflação em 2021 atingiu 25 % e se estima ser de 18 % no ano de 2022. É o regresso da doença holandesa, que penaliza fortemente a produção nacional não-petrolífera geradora de emprego e favorece o negócio fátuo baseado no trading. A inflação demora a ajustar-se e, enquanto isso, os importadores ficam com as mais-valias cambiais, em prejuízo dos produtores nacionais.  

Estabilizar a moeda é fundamental para o desenvolvimento do país e temos de louvar o grande esforço que está a ser feito nesse sentido. Mas temos de ter consciência de que não há moeda forte sem economia forte e estabilizar a moeda nacional não é valorizá-la a qualquer preço.  

Em conclusão, é importante estabilizar a moeda, mas também é importante garantir a economia não-petrolífera e manter a estabilidade do tecido social, o que recomenda uma atenção redobrada com o efeito colateral da doença holandesa.

The Return of Dutch Disease

To control inflation, developing countries almost always end up resorting to currency pegging, an instrument that ties the price of money to that of a country with stable general price levels. In the Lusophone world, we have the examples of Cape Verde and São Tomé and Príncipe. Currency pegging can be associated with Dutch disease. This is the reason for this article.  

It was the currency pegging effect that allowed Angola's inflation to go from 15.3 % in 2010 to 7.5 % in 2014. A peg created by the abundance of foreign exchange in that period. As soon as the price of oil went down, the peg was loosened and inflation took off.

It was not only the loss of the currency peg that led to uncontrolled inflation from 2015 onwards. It was also the irrational exuberance of the previous decade, characterized by the squandering of oil revenues. Then, without the abundant oil revenue, came the hasty incurrence of debt.  

Cumulative inflation from January 2010 to December 2014 was 62%, while exchange rate variation was only 9%. Even considering some loss of purchasing power of the dollar in the international market, we will have had a relative appreciation of the Kwanza close to 40% in that same period.  

This little exercise shows that using currency pegging to control inflation can have as a side effect the Dutch disease, typical of economies with extractive predominance, which manifests itself through the overvaluation of the national currency, making imports cheaper and removing competitiveness from domestic production.

The expression ‘Dutch disease’ was coined last century by The Economist to describe what happened in the Netherlands when they discovered natural gas, the export of which caused the Florin to be overvalued, to the point of ruining production of other goods and services.

2021 was the beginning of a new period of strong appreciation of the Kwanza, whose effect on inflation may take time to be felt. The Kwanza appreciated close to 40% by the end of the first quarter of 2022, while inflation in 2021 reached 25% and is estimated to drop to 18% in 2022.   It is the return of the Dutch disease, which strongly penalizes the non-oil related national production that generates employment and favors fatuous businesses based on trading. While inflation takes time to adjust, importers are left with the exchange rate gains, to the detriment of domestic producers.  

Stabilizing the currency is fundamental for the development of the country, and we must praise the great effort that is being made in that direction. But we must also bear in mind that there is no strong currency without a strong economy and that stabilizing the national currency does not mean valuing it at any price.  

To conclude, it is important to stabilize the currency, but it is also important to safeguard the non-oil economy and maintain the stability of the social fabric. This requires increased attention to the side effect of Dutch disease.