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Responsabilidade social das empresas: compromisso com o desenvolvimento sustentável

António Páscoa
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Foto:
DR

Aclare-se: responsabilidade social corporativa não é marketing, não é publicidade, muito menos uma mão cheia de doações para dar nas vistas.

Em todo o mundo, empresas de maior ou menor dimensão apostam na responsabilidade social para garantir o desenvolvimento sustentável do lugar onde operam, de mãos dadas com o Estado, a sociedade civil e os consumidores. O impacto positivo destas acções pode ser surpreendente.

A aritmética dos lucros há muito deixou de ser o único vector que determina o desempenho das empresas. O impacto positivo que as organizações podem gerar nas comunidades onde operam é cada vez mais um factor que accionistas, consumidores, governos e instituições internacionais avaliam com especial cuidado. Na base desta filosofia corporativa, um argumento irrebatível: os problemas sociais, ambientais e económicos deixaram de ser um problema individual e, como tal, há que atacá-los em conjunto como sociedade. Logicamente, as empresas não podem ficar de fora da solução.

Com esta consciência, a responsabilidade social empresarial converteu-se já num aspecto vital do desenvolvimento de corporações locais e globais. As empresas sabem que os consumidores exigem um valor agregado aos produtos que oferecem. Um valor não tangível que passa por um compromisso e preocupação reais pelas condições de vida das pessoas e comunidades sem as quais os negócios não seriam possíveis.

A métrica “responsabilidade social”, com capítulos cada vez mais extensos nos relatórios de sustentabilidade das organizações, inclui variáveis que vão da ética empresarial (aplicação de práticas contra a corrupção e suborno, por exemplo) à dimensão social dentro da própria empresa (geração de empregos, cumprimento dos direitos dos trabalhadores, formação, etc.). O compromisso com a preservação do ambiente e com o desenvolvimento comunitário são outros dois aspectos, e os que mais interessam ao grande público, que sabe que tem muito a ganhar com eles. Quando bem estruturadas, estas políticas brindam soluções sustentáveis que melhoram os lugares onde as empresas operam e a vida dos seus habitantes.

A tendência é mundial e Angola não é excepção. No entanto, no nosso país os passos ainda são breves e lentos. Nesta fase inicial do caminho, empresas, comunidades, consumidores e jornalistas estão a tentar entender o que é isto de responsabilidade social, como comunicá-la, o que deve motivar estas acções, que impactos esperar. Trata-se de doar meia dúzia de lapiseiras a crianças desfavorecidas? É puro marketing de empresas que querem ficar bem na fotografia, sem qualquer interesse público e informativo?

A ambas perguntas a resposta é um absoluto não. Vamos por partes. Responsabilidade social não são acções inconsequentes, mas sim projectos de desenvolvimento social, económico e ambiental estruturados. O efeito não é imediato, aposta-se na sustentabilidade a longo prazo e na autonomia dos beneficiados. Dar umas quantas canetas esgota-se quando a tinta acaba. Sem mais. Por outro lado, e tomando um exemplo real de um projecto de responsabilidade social em Angola, o projecto Ya Tchi Yetu da Nutry, acções de formação de pequenos agricultores que os ajudam a optimizar os recursos disponíveis para aumentar e diversificar a produção é outra história. Estas sim, são acções com um impacto significativo no futuro destas pessoas, que se mantém e multiplica até muito depois de terminada a intervenção.

Respondendo a quem duvida das motivações destas acções, é claro que um programa de responsabilidade social relevante associa um valor positivo à marca que o leva a cabo. Mas esse não é o ponto focal. As verdadeiras acções de responsabilidade social corporativas não são dicas fora do contexto, nem ideias iluminadas que uma empresa tem num arrebate de engenho para “fazer bonito” e ganhar clientes. São, sim, projectos profundos, pensados em conjunto com quem melhor conhece a situação no terreno, a sociedade civil ou instituições públicas, com vista a uma transformação positiva profunda, duradoura e sustentável.

Responsabilidade social não são acções inconsequentes, mas sim projectos de desenvolvimento social, económico e ambiental estruturados. O efeito não é imediato, aposta-se na sustentabilidade a longo prazo e na autonomia dos beneficiados.

E tem mais. Num país como Angola, com carências conhecidas e reconhecidas, uma estratégia de responsabilidade social chama as empresas a contribuir, a antecipar-se a “apelos oficiais” para ajudar a melhorar as condições de vida de todos. Em nenhum lugar do mundo o Estado tem capacidade para resolver todos os problemas sozinho. Como realça a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) no relatório “Directrizes para Empresas Multinacionais 2011”, as parcerias de autoridades com empresas que fomentam o desenvolvimento económico, social e ambiental tem dado resultados importantes em países em vias de desenvolvimento, como o nosso. Em Angola não tem por que ser diferente.

Estas sinergias entre organizações privadas, públicas ou sem fins lucrativos intervêm na vida e espaço públicos tornando-os mais robustos. Informar sobre estas iniciativas dá-lhes relevância, ajuda-as a multiplicar-se e a melhorar mais e mais vidas. Não podem passar desapercebidas a nível mediático por preconceitos contra quem teve a iniciativa de as pensar – as empresas. Neste tabuleiro do desenvolvimento sustentável, todos os jogadores contam, porque todos eles (empresas, Estado, sociedade civil, comunicação social) são uma só equipa. É o nosso futuro como país que está em jogo. E isto definitivamente interessa-nos a todos.