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UCRANIA II - UM NOVO AFEGANISTÃO!

Nuno Fernandes
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Foto:

A Ucrânia foi o campo de batalha escolhido pelos Estados Unidos para levar a Rússia a um conflito militar de média intensidade (de características híbridas) que a conduzisse ao desgaste...

Começo com um ponto prévio: considero a operação russa na Ucrânia uma INVASÃO.  Até poderemos chamar romaria, procissão, sei lá… no fim, iremos todos perceber que não difere do que sofremos com os sul-africanos; das invasões francesas com Bonaparte que ocuparam Moscovo; da Alemanha na primeira e segunda guerras mundiais; da dos EUA ao Iraque e ao Afeganistão, com apoio da Nato (uma organização militar europeia, dita defensiva, a ir combater na Asia), etc, etc. Como já havia referido, esta operação está condenada ao fracasso (na minha convicção), fundamentalmente porque não tem pernas para andar. Os meios militares, em quantidade e qualidade, da parte atacante, são insuficientes. A ocupação do território ucraniano, pela sua extensão, segundo analistas militares credíveis, necessitaria de um efectivo de 12 milhões de soldados e competentes meios. Duzentos por habitante. A Rússia entrou com pouco menos de 200 mil. Ainda que em desigualdade material, os ucranianos têm a seu favor o factor casa. O conhecimento do terreno, o nacionalismo (conhecemos, por nós próprios, a sua importância na reacção ao invasor) e o apoio internacional evidenciado pelos EUA e EU, e não só, numa operação há anos cuidadosamente preparada.

A Ucrânia foi o campo de batalha escolhido pelos Estados Unidos para levar a Rússia a um conflito militar de média intensidade (de características híbridas) que conduzisse ao seu desgaste militar e financeiro e que a retirasse, a curto prazo, da categoria de segunda potência (será que o é?) para que todas as atenções se fixem futuramente na China, país a quem a ideia não desagrada totalmente. A Rússia será apenas uma potência nuclear mas, sendo este poder unicamente dissuasor e último na sua utilização, será inútil nesta guerra. Ninguém, no seu pior senso, quererá utilizar uma solução que o destruirá também. É esse o lado positivo do poder nuclear.

A guerra da Ucrânia, na visão Ocidental (leia-as dos EUA), deve hoje, medidas as forças em conflito, prolongar-se, pois se converterá num novo Afeganistão russo. A Rússia poderá ocupar partes do território ucraniano, no curto prazo, mas não conseguirá mantê-las. O exército ucraniano será progressivamente dotado de meios modernos que anularão o domínio dos ares pela aviação russa, criarão sérias dificuldades à sua logística e, a prazo, paralisarão toda a componente terreste pesada do adversário. Lembremo-nos da nossa guerra contra a África do Sul e como a ganhámos.

A Rússia, ao invés de uma operação em profundidade, devia, como mensagem aos EUA e Ucrânia, ter alvejado a partir do seu território, com mísseis de alta precisão, objectivos militares e económicos ucranianos, incluindo centros de poder, sem com isso provocar a destruição de infra-estruturas civis e a morte de cidadãos, num postal que a fragiliza na guerra da Informação, campo em que o Ocidente se sente como peixe na água e que “legitimou” a ajuda ocidental a Kiev. A Rússia deve hoje propor, com urgência, a intermediação das Nações Unidas, China, EUA, União Europeia, Vaticano e Igreja Ortodoxa, no sentido de se criar um compromisso internacional que ponha fim ao conflito militar, contrapondo, para a sua retirada, o reconhecimento da Crimeia como território historicamente russo, da soberania da Ucrânia sobre todo o seu restante território, a impossibilidade da sua adesão à NATO e a assumpção do compromisso das partes responsáveis pela guerra (EUA, EU, Reino Unido e Rússia) em participarem na reconstrução do território ucraniano. Acho que os russos devem empenhar-se nesta solução, pois alargar temporalmente uma guerra que não se pode ganhar não faz sentido. Política e comunicacionalmente está perdida. Os russos não entenderam o Ocidente e caíram no engodo americano.  

UKRAINE II - A NEW AFGHANISTAN!

I will by making it clear that I consider the Russian operation in Ukraine an INVASION.  We may call it a pilgrimage, a procession, or whatever… at the end of the day, we will all realize that it is no different from what we suffered with the South Africans; from the French invasions led Bonaparte who occupied Moscow; from Germany in the first and second world wars; from that of the USA in Iraq and Afghanistan, with the support of NATO (a so called defensive European military organization that fought in Asia), etc, etc. As I have mentioned before, this operation is doomed (in my opinion), fundamentally because it has no legs to stand on. The quantity and quality of the attacking party's military resources are insufficient. According to credible military analysts, the occupation of Ukrainian territory, given its size, would require 12 million soldiers and adequate means. Two hundred per inhabitant. Russia came in with a little less than 200,000. Even though the Ukrainians are underequipped, they have in their favor the home factor, knowledge of the terrain, nationalism (we ourselves know its importance in reacting to the invader), and international support provided by the U.S., the EU and others, in an operation that has been carefully prepared for years.

Ukraine was the battleground chosen by the United States to lead Russia into a medium intensity military conflict (of hybrid characteristics) that would lead to military and financial exhaustion and, in the short term, remove Russia as the second world power (is it really?), so that in the future all attention is on China, a country that is not totally unhappy with the idea. Russia will only be a nuclear power, but since this power is only a deterrent and a last recourse, it will be useless in this war. No one in their worst mind would want to use a solution that will destroy them as well. That is the positive side of nuclear power.

In the Western view (i.e., the US), and after assessing the forces in conflict, the Ukraine war, should last for a long time and become a new Russian Afghanistan. Russia will be able to occupy parts of Ukrainian territory, in the short term, but will not be able to keep them. The Ukrainian army will be progressively equipped with modern means that will annul the Russian air force's domination, will create serious logistics difficulties and, in the long run, will paralyze the entire ground resources of the adversary. Let us remember our war against South Africa and how we won it.

To send a message to the US and Ukraine, instead of an in-depth operation, Russia should have stricken Ukrainian military and economic targets, including centers of power, from its own territory using high-precision missiles, without destroying civilian infrastructure or killing civilians. The current scenario puts Russia in a weak position in terms of the information war, an area dominated by the West, which "legitimized" Western support to Kiev.  Russia must urgently propose the mediation of the United Nations, China, the USA, the European Union, the Vatican and the Orthodox Church in order to establish an international compromise that puts an end to the military conflict, demanding in return for its withdrawal the recognition of Crimea as historically Russian territory, the sovereignty of Ukraine over all its remaining territory, Ukraine’s agreement not to become a member of NATO and the commitment of the parties responsible for the war (USA, EU, UK and Russia) to participate in the reconstruction of Ukraine. I think the Russians should commit to this solution, because temporally extending a war that cannot be won makes no sense. Politically and communicationally it is lost. The Russians have not understood the West and have fallen for the American lure.