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Um milhão de angolanos acometidos pela insegurança alimentar este ano

A economia angolana não regista crescimento desde 2016, o PIB teve um recuo acumulado de 9%, a pobreza aumenta e com ela a fome.

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José Zangui
Fotografia
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DR
José Zangui

Segundo dados oficiais da Direcção Nacional de Saúde Pública, “duas crianças menores de cinco anos morrem de fome a cada hora em Angola” e segundo a UNICEF, 46 pessoas morrem diariamente por desnutrição.

A situação da fome em Angola tende aumentar sobretudo na região sul do país é a constatação de quem vive no terreno, como o padre Pio Wacussanga.

A situação das comunidades rurais no sul é grave e exige uma resposta urgente, alertou o padre Pio Wacussanga, em entrevista recente a DW, tendo lamentado que o executivo tenha deixado a situação chegar a esta fase, apesar dos muitos alertas.

A situação no Sul do país não é nova. Quase de forma cíclica, a região é afetada pela seca ou por inundações. A título de exemplo das consequências da seca no país, dados avançados pelas autoridades governamentais apontam que, só no município dos Gambos, na província da Huila, mais de 90 mil famílias estão afetadas pela estiagem e pela fome. O mesmo se aplica a perto de vinte mil pessoas na província do Namibe, nos municípios do Tombwa e Virei.

Mas a fome em Angola não se vive apenas no Sul, em Luanda, a capital do país, a situação também é galopante. Famílias há que para poderem comprar alimentos cada vez mais caros, têm que “fazer sócia”, um fenómeno que consiste na junção de valores entre várias pessoas para adquirir bens alimentares em maior quantidade, como arroz, coxa de franco, óleo alimentar e outros bens, que depois é repartido de forma equitativa.

A alta dos preços dos principais produtos da cesta básica é a principal razão para optar pela sociedade ou simplesmente “sócia”.

Com efeito a situação socio-económica do país para a maioria da população angolana é descrita como estando a caminhar de mal para pior. Os factos são relatados por cidadãos que se vendo angustiados com a pobreza extrema a que estão voltados lamentam que os discursos oficiais passam ao lado desta situação e não abordam o problema com realismo.

Os sinais de pobreza são cada vez mais visíveis sobretudo à medida que se entra para o interior dos bairros suburbanos onde falta quase tudo em termos de serviços sociais desde o mais avançado até ao mais elementar. No município de Cacuaco, província de Luanda, há pessoas que diariamente vão vasculhar o lixo no aterro sanitário dos Mulenvos para encontrar comida. A cada dia que passa a crise económica do país conhece um estágio mais preocupante.

Angola e Moçambique estão entre os países em grave risco de fome por causa da pandemia. Relatório das Nações Unidas refere que há 34 milhões de pessoas à beira de uma situação crítica de fome até Julho deste ano.

“Há 34 milhões de pessoas à beira de cair numa situação grave de fome”, alerta um relatório da ONU publicado, recentemente, que lista os 20 pontos do planeta com maior risco de ver parte da sua população entrar em situação grave de falta de alimento até Julho deste ano. Entre os lugares que atravessam a situação mais aguda estão Angola e Moçambique.

Os três países que ocupam o topo da lista negra são o Iémen, o Sudão do Sul e a Nigéria, cujas populações já estão, ou estão prestes a cair num “nível catastrófico” de fome (a última das cinco fases estabelecidas pela ONU).

Também Angola e Moçambique se encontram entre os países com maior risco. Em Angola, calcula-se que cerca de um milhão de pessoas possam vir a sofrer de “insegurança alimentar”, este ano, um número 17% superior à média anual dos últimos cinco anos. As incertezas económicas trazidas pela pandemia e uma “seca anormal” devido à reduzida precipitação que tem abalado a agricultura são as principais razões apontadas no relatório.

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