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Zaire. O berço de Angola

As margens do rio Zaire, ou Congo como também lhe chamam, testemunharam os acontecimentos que levaram ao nascimento de Angola. Terras de tradição e lendas narram as memórias ricas do povo.

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Susana Gonçalves
Susana Gonçalves

Habitada desde o período paleolítico, a província do Zaire, plana e banhada por rios que a tornam especialmente fértil e facilitam a comunicação, já fazia história antes da chegada dos primeiros europeus, no final do século XV. O então Reino do Kongo, fundado em 1390 e que seria um Estado independente até 1857, era governado pela dinastia dos Menekongo, e a sua capital, M’Banza Congo, era a maior e mais organizada cidade da África subequatorial.

Quando, em 1482, o navegador português Diogo Cão chegou à costa angolana e aportou na foz do rio Zaire reinava Nzinga a Nkuwu,que recebeu os estrangeiros em M’Banza Congo, como amigos, chegando a converter-se ao cristianismo, assumindo o nome de Afonso I.

Com terras e um clima favoráveis à cultura de produtos tropicais e à criação animal, águas ricas em pescado, madeiras de qualidade e belos e surpreendentes cenários à espera de encantarem os visitantes, o Zaire depende, sobretudo, da exploração do petróleo, o principal recurso explorado na região.

Com a eleição do centro histórico da cidade de M’Banza Congo a Património daHumanidade, pela UNESCO, a província conta agora com um novo pólo de atracção que poderá potenciar o turismo na região.

Para chegar à província do Zaire, o avião será, sem dúvida, o meio de transporte mais cómodo e rápido e o aeroporto do Soyo servirá de porta de entrada numa região repleta de segredos por descobrir. Porém, a viagem por terra de Luanda até ao Norte esconde, ela própria, inúmeros motivos de interesse e tem todos os ingredientes para se transformar numa aventura inesquecível. Opte por um veículo todo-o-terreno, já que os acessos a alguns dos locais a visitar podem ser um pouco difíceis.

N’Zeto, terra de pescadores

Escolhemos fazer este percurso e o município do N’Zeto, com as suas praias e aldeias de pescadores, deu-nos as boas vindas assim que entrámos na província do Zaire. A pouco menos de 300 km da capital, N‘Zeto é um destino de fim-de-semana para muitos habitantes de Luanda precisamente devido às suas praias. De areias douradas e mar azul, estas praias, mais ou menos frequentadas, oferecem garantia de sossego a famílias inteiras ou a casais em busca de um clima romântico, e brindam os apreciadores da boa mesa com deliciosos pratos de peixe fresco pescados ali mesmo, pelas comunidades de pescadores locais. Amanhado e cozinhado na praia, em “restaurantes improvisados”, o peixe tem um sabor ainda mais especial. Os pescadores desportivos encontram aqui um local privilegiado, com várias espécies em abundância,como acontece na Praia de Kikando onde se pode capturar desde corvinas alinguado e peixe-espada. Já na Praia dos Pescadores, curiosamente, o que mais forasteiros atrai são as ondas, desejadas pelos surfistas.


Numa viagem feita numa estrada quase sempre paralela à costa, a comuna de Musserrae as suas pedras equilibristas justificam uma primeira paragem. Conhecidas emkikongo (a língua local) como Tadi-dia-bandakana, estas pedras desafiam a gravidade e, vista de determinados ângulos, a pedra de cima parece prestes a cair. Mas há séculos que “guarda” a localidade e ali irá continuar por muitos mais.

Passando o N’Zeto, outro dos pontos de paragem obrigatória é sobre a ponte da estrada em direcção ao Soyo, para observar a foz do rio MBridge e as águas doces a misturarem-se com as do Oceano Atlântico. Já a caminho do Soyo, deixamo-nos deslumbrar pelos vastos areais das praias Mucula,Kinzau e Mbua Moio, alguns dos pontos de paragem obrigatória.

Soyo, para além do petróleo


Chegados ao Soyo, na margem esquerda do rio Zaire, o município, antiga localidade de Santo António do Zaire, é hoje uma zona fronteiriça em expansão.Aqui chegam muitos congoleses para fazerem comércio, visitam parentes e amigos ou chegam para se fixarem do lado de cá da fronteira e do rio. Ao entrar na rua principal da cidade somos surpreendidos por um extenso mercado onde se vende de tudo um pouco, num misto de hábitos e culturas raramente visto em qualquer outro ponto de Angola. Um quadro onde se misturam gentes de todo o mundo, que trabalham na base do Kwanda, um dos mais importantes centros económicos deAngola, onde estão instaladas as principais empresas petrolíferas que operam no país.


Foi precisamente aqui, na ilha da Ponta do Padrão, onde as águas do Zaire se encontram com o Oceano, que, em 1482, o navegador português Diogo Cão – ao serviço do rei D. João II de Portugal – desembarcou e teve o primeiro contacto com o povo daquele que era o Reino do Kongo. Foi aqui que nasceu Angola e muitos são os pontos que testemunham esse momento.


O Padrão de São Jorge, que Diogo Cão ergueu quando pisou pela primeira vez terra africana, nesta ilha, é um dos primeiros marcos históricos a visitar no Soyo, que merece ainda uma visita à mística Pata da Maria, um espaço com cerca de 20 metros quadrados onde, misteriosamente, não cresce capim. Segundo a lenda,os colonialistas, numa das suas expedições, encontraram e levaram para Portugal dois santos: Santo António e Santa Maria. Esta última, dizem, nunca chegou ao destino final e, num dia de tempestade no mar, saltou do barco e foi ali cair,tornando-o assim num lugar sagrado.

O porto e a Igreja de Mpinda também contam História. Uma enorme cruz assinala o local onde se realizou a primeira missa católica rezada em território angolano e onde ocorreram, em 1491, os primeiros baptismos dos habitantes do Soyo e os primeiros na África subsariana.


A Igreja da Missão de Santo António do Mpinda, onde se estabeleceu a primeira missão católica da África Austral e que está classificada como PatrimónioNacional, continua, ainda hoje, a receber cerimónias onde as vozes dos coros se fazem notar. Construída em 1943, é antecedida por uma avenida ladeada por mangueiras centenárias e emociona quem a atravessa.


Se as praias continuam a ser uma atracção especial, e aqui destacam-se a Praia dos Pobres, do Kifuma, do Tombe e do Kivanda, a subida da foz do rio proporciona emoções muito fortes. O rio Zaire é o segundo maior da África, depois do Nilo, e o sétimo maior do mundo, com uma extensão total de4.700 km, e em volume de água é o primeiro de África e o segundo do mundo,a seguir ao Amazonas. Esta descrição dá pistas sobre a espectacularidade que o envolve.

De canoa, embrenhe-se nos canais de Pululu e Kimbumba e aprecie a paisagem que resulta da força do rio, ladeado por raízes de mangais cuja folhagem cerrada tapa a luz do sol, tornando o ambiente sombrio, mas ao mesmo tempo belo e exótico.

De barco, é possível subir o rio em direcção ao interior e visitar a Pedra do Feitiço, lugar emblemático da tradição e cultura locais, repleto de antigas inscrições pictográficas. Esta viagem, no entanto, tem de ser antecipadamente solicitada e preparada para garantir a total segurança dos viajantes.

Se optar por um passeio em direcção à foz,pode visitar a Ilha do Kifundango, o Farol, os canais da Moita Seca, a Ponta doPadrão, a Ilha de Luamba e, finalmente, o troço do rio onde há mais de 500 anos funcionou o Porto M’Pinda para comércio e embarque de escravos. No final,quando o rio desagua no Oceano, o impacto do encontro entre as águas fica gravado na memória.

As cores do Zaire

Saímos do Soyo e voltamos à estrada que nos trouxe. Agora, tomamos o caminho para o município de Tomboco, terra de agricultores onde se cultiva um pouco de tudo. Vale a pena parar no mercado local para nos deixarmos deslumbrar pela profusão de sons, cores e cheiros e comprar produtos locais, com destaque para o ananás – o mais doce de Angola –, as bananas e a mandioca, comercializados pelas simpáticas vendedoras com quem regateamos o preço da mercadoria numa disputa divertida.

Em direcção ao interior, passamos por Nóqui, uma simpática e calma vilaque tem a ambição de se tornar num dos grandes pontos turísticos da província.E tem potencial para isso. Banhada pelo rio Zaire, pode ser visitada de barco,já que o curso do rio desde a foz até aqui é navegável, com uma margem ocupada por Angola e a outra pela República Democrática do Congo. Neste passeio,passamos pelo local onde antes estava a árvore Nsandi a Nzondo, assinalado por um marco em pedra que revela o local preciso por onde o povo atravessou para ocupar a zona norte do antigo Reino do Kongo, hoje a República Democrática doCongo.

Em Nóqui, não dispense a visita ao palácio, estrategicamente posicionado no topo de uma colina com vista para uma das mais belas paisagens sobre a vila e sobre o rio Zaire. Com uma arquitectura colonial, o edifício foi reabilitado em 2007, mas continua a necessitar de obras de reabilitação que reavivem a suaHistória.

Nesta viagem pelo interior da província do Zaire chegamos, finalmente, aM’Banza Congo, o município cujo centro histórico foi o primeiro local de Angola a ser considerado Património da Humanidade pela UNESCO. Por isso mesmo, merece uma atenção especial e um maior destaque, já que constitui, por si só, uma viagem à parte (leia nas próximas páginas).

O périplo pelas terras do Zaire termina com uma visita à Kuimba, município a 80 km de M’Banza Congo, acessível por estradas nem sempre em bom estado mas que fazem as delícias de quem gosta de explorar a natureza no seu estado mais virgem.

Na Serra da Kanda, as quedas do rio Mbridge acentuam o cenário selvagem.Só se tornam visíveis a cerca de 4,5 km de distância e quando não há nevoeiro.Esta viagem também não é aconselhada em tempo de chuva, altura em que o pequeno rio que tem de se atravessar enche, impossibilitando a passagem.

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