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“A doação deve ser percebida como um investimento social privado"

Celso Grecco é o criador da primeira Bolsa de Valores Sociais do mundo, em 2003, para a BM&FBOVESPA. Em Angola, está a ajudar na implementação do programa de Responsabilidade Social do BIC.

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Fotografia
:
Carlos Aguiar
Como surgiu a ideia de transformar a Responsabilidade Social em algo mais sustentável?

Esta ideia nasce de uma constatação mundial de que, apenas a Responsabilidade Social, na forma de uma filantropia caridosa e assistencialista, não está a resolver os problemas sociais graves, urgentes em todos os países. Não é só em Angola ou no Brasil, mas nenhum país do mundo consegue resolver problemas sociais apenas com a caridade, embora ela seja necessária. Por isso, foi necessário ter uma visão transformadora e inovadora que percebe a doação não como um dinheiro que simplesmente se dá aos pobres, mas como um investimento social que tem de financiar soluções sociais. O banco pretende que toda a sociedade, mesmo uma empresa que não tenha uma relação comercial com o Banco BIC possa ter uma relação em nome de uma causa que possa transformar Angola. Isto é o crescer juntos.

Que metas pretendem alcançar com essa plataforma?

Uma das principais metas do programa é mudar a percepção da sociedade a respeito das doações que são direccionadas para projectos sociais. A doação deve ser percebida como um investimento social privado, que é um outro conceito de doação através do qual, o dinheiro é destinado a projectos sociais. A organização social presta contas, então é possível qualquer pessoa perceber qual foi a transformação que aquele dinheiro trouxe para o projecto social.

Qual será o grande ganho e impacto deste projecto na sociedade?

O lucro social é sim o grande ganho, na expressão do retorno social que dá o dinheiro bem aplicado, porque ele transforma vidas, liberta pessoas, ensina profissões e dá autonomia financeira aos jovens crianças, adolescentes, que recebem educação, saúde. Lucro social é toda vez que vejo dinheiro aplicado em boas causas e que são transformadoras.

Como será feito o controlo e mentoria?

Faremos primeiro um diagnóstico de cada organização que for apoiada pelo crescer juntos, para identicar as suas fragilidades. Eventualmente uma organização pode ter todo o sistema contabilístico bem feito, mas têm carência na área de planeamento estratégico. Daí, faremos um plano de formação e mentoria para cada organização, de acordo com a necessidade que apresentar.

O banco vai disponibilizar uma conta que será direccionado para os projectos sociais aprovados. Vamos acompanhar todos os projectos seleccionados de forma que possamos produzir relatórios qualitativos e quantitativos, para informar a aplicação dos investimentos. Assim, a sociedade poderá saber sobre as prestações de contas, quantas vidas foram transformadas, depoimentos dos beneficentes que foram abrangidos de um jeito e saem transformados pelos projectos socias. Daremos visibilidade para tudo isto, de modos que as pessoas se sintam encorajadas a apoiarem mais.

O apoio financeiro varia em torno de quanto?

Cada organização social que apresentar uma candidatura vai fazê-lo também apresentando um projecto e vai explicar a necessidade que ela tem e que resultado e impactos espera do projecto. Portanto, não existem valores pré-determinados, mas existirá uma avaliação criteriosa sobre o valor que o projecto tem para a comunidade e para as pessoas que atende. Se fizer sentido, a equipa técnica aprova e a organização estará habilitada a receber o apoio.

O que se pode esperar para os próximos anos?

Acredito que a principal perspectiva é que mais projectos como este venham acontecer e que mais empresas nas industriais de bebidas, alimentos, petrolíferas e não só no sector financeiro, criem programas sociais sustentáveis.

Curriculum Vitae

Celso Grecco é brasileiro e o criador da primeira Bolsa de Valores Sociais do mundo, em 2003, para a BM&FBOVESPA, adoptada como Estudo de Caso e recomendada para as demais Bolsas de Valores do mundo pela ONU. Entre 2007 e 2010 actuou como consultor de branding para o Charity Bank, primeiro banco sem fins lucrativos do mundo, com sede na Inglaterra, tendo criado o posicionamento de marca que o Banco segue até hoje. Em 2008 recebeu o prêmio Vision Awards em Berlim entregue pelo Prémio Nobel da Paz, Professor Muhammad Yunus, e em dezembro do mesmo ano foi homenageado na sede da ONU em Nova York. Citado no livro The Power of Unreasonable People, teve também o perfil retratado nas revistas Newsweek (Estados Unidos) e Der Spiegel (Alemanha).

Em 2009 actuou também em Portugal, onde o conceito da Bolsa de Valores Sociais foi replicado para a Euronext Lisbon (Bolsa de Valores de Portugal) como projecto piloto para a rede Euronext - Bolsas de Valores de Nova York, Paris, Amsterdam e Bruxelas. Colaborou com o livro Financing the Future – Innovative Funding Mechanisms at Work publicado na Alemanha, além de ser membro do Conselho de diversas Organizações Sociais e Ambientais no Brasil e na Europa. Em 2015 esteve em Pequim, China, homenageado como um dos cinco finalistas do Prémio Olga Alexeeva, que reconhece pessoas com contribuições relevantes ao sector social de países em desenvolvimento. É também autor do livro “A Decisão De Que O Mundo Precisa”.

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