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Hélia Pimentel: “O mundo dos negócios é astuto e exige posturas antiéticas”

Domingos Amaro
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Foto:
Carlos Aguiar

A fundadora da plataforma angolana, JuLaw, advoga que é crucial o investimento na formação e educação da mulher, principalmente de adolescentes, para se empoderarem o suficiente.

CEO & Fundadora da JuLaw

Hélia Pimentel considera-se um produto 100% angolano. Nasceu em 1985, no município do Lobito, província de Benguela. Por motivos do conflito armado, em 1992, mudou-se para Luanda, onde fez toda a formação académica e trajecto profissional. A gestora de projectos, com vasta experiência em administração de empresas e sociedades de advogados, gestão estratégica de negócios, é jurista e licenciada em Economia pela Universidade Católica de Angola.

O que significa “JuLaw” e como surgiu essa ideia?

JuLaw, em Inglês, é acrónimo de “Justice & Law”. Surgiu da necessidade de encontrar juristas, advogados e os seus respectivos trabalhos na internet. Em 2017, lançámos a JuLaw como rede social, com funcionalidades parecidas ao Facebook, mas, infelizmente, o tempo não era o certo, porque não tínhamos tantos usuários de internet como agora. Em 2020, com a pandemia, decidi-me a dar vida à JuLaw e acabámos por alcançar mais público do que esperado.

Quanto já investiu para manter a plataforma activa?

Para a JuLaw estar activa até ao momento, ela precisou de alguns recursos importantes, como o tempo, o conhecimento e valores monetários. Falando de valores, já investi mais de seis milhões de kwanzas, principalmente em tecnologia de informação e comunicação.

Os juristas da lusofonia já se sentem mais representados com o surgimento da plataforma?

Sinto que sim, mas ainda há muito por se fazer. O alcance da JuLaw ultrapassou a minha expectativa de público-alvo e acabou por nos conectar com juristas de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Brasil e Portugal. Todos, sem excepção, felicitam a criação da JuLaw, por estar a fazer algo que não existia no mercado e era necessário.

No universo de negócios femininos, que cenário do país a preocupa mais e em que esfera, na sua opinião, é imperativo actuar?

Apesar de ser um problema transversal para todos, os poucos projectos de investimentos e financiamento para pequenos negócios é preocupante. Os negócios das mulheres dependem delas mesmas, elas são a sua própria garantia, mas sabemos que isso não é suficiente para uma instituição bancária. O mundo dos negócios é astuto e exige posturas antiéticas que, para nós mulheres, é difícil tomar, como, por exemplo, a corrupção. É muito difícil conseguirmos fechar um bom contrato, sem ter um homem durante as negociações: ou somos demasiadamente “ingénuas” para falarmos sobre negócios, ou excessivamente, correctas por não aceitarmos determinadas condições. É crucial o investimento na formação e educação da mulher, principalmente de adolescentes, para se empoderarem o suficiente.

Como caracteriza a actual geração de jovens empreendedores e como vê o futuro do ecossistema em Angola?

Penso que agora estamos a criar espaço para um bom ambiente de negócios via juventude. Antes era difícil ver um jovem a falar sobre negócio e soluções para problemas locais e globais. Infelizmente, a maioria ainda não tem espaço. O futuro do ecossistema de Angola depende de quantos micros e pequenos negócios serão contratados por médias e grandes empresas, pois só estas têm capacidade para comprar em grande escala, permitindo, assim, aos empreendedores melhor organização e maior parceria entre os mesmos.

Qual é a apreciação que faz das fintechs, principalmente as aceleradoras e incubadoras?

Pode ser prematuro, mas, a meu ver, devem focar em áreas específicas, como fintechs, legaltechs, medtechs, e-commerce e outras fora do mundo digital, porque ficarei mais segura em trabalhar com incubadoras especializadas em legaltechs, pois percebem a minha linguagem do negócio e conhecem o seu ecossistema.

What does “JuLaw” mean and how did this idea come about?

JuLaw, in English, is an acronym for “Justice & Law”. It arose from the need to find jurists, lawyers and their respective works on the internet. In 2017, we launched JuLaw as a social network, with features similar to Facebook. Unfortunately, the timing was not optimal because we did not have as many internet users as now. In 2020, with the pandemic, I decided to bring JuLaw to life and we ended up reaching more audiences than expected.

How much have you already invested to keep the platform active?

For JuLaw to be active so far it needed some important resources, such as time, knowledge and money. Speaking of money, I have already invested over 6 million kwanzas, mainly in information and communication technologies.

Do Portuguese-speaking jurists already feel more represented with the emergence of the platform?

I feel so, but there is still a lot to be done. JuLaw’s reach has exceeded my expectations of target audience and has connected us with jurists from Cape Verde, São Tomé and Príncipe, Mozambique, Brazil, and Portugal. Everyone, without exception, congratulated the creation of JuLaw for doing something that did not exist and was needed in the market.

Within the women’s business universe, what local issues concern you most and in which spheres, in your opinion, is it imperative to act?

Although it is a cross-cutting problem for everyone, the few investment and financing projects for small businesses is worrying. Women’s business enterprises depend on their owners alone, they are their own guarantee, but we know that this is not enough for a banking institution. The business world is shrewd and requires unethical stances that are difficult for us women to take, such as corruption. It is very difficult for us to close a good contract without having a man during negotiations: we are either too “naïve” to talk about business, or too correct in not accepting certain conditions. It is crucial to invest in the training and education of women, especially teenagers, to enable them to empower themselves.

How do you characterize the current generation of young entrepreneurs?

And how do you see future business ecosystems in Angola? I think we are now creating space for a good business environment through the youth. Before it was hard to see a young person talking about business and solutions to local and global problems. Unfortunately, most of them still don’t have space. Future business ecosystems in Angola depend on how many micro and small businesses will be contracted by medium and large companies, because only these have the capacity to buy on a large scale, thus allowing entrepreneurs better organization and greater partnership between each other.

What is your assessment of fintechs, especially accelerators and incubators?

It may be premature, but in my view, they should focus on specific areas, such as fintechs, legaltechs, medtechs, e-commerce and others outside the digital world, because I will be safer working with incubators that specialize in legaltechs, as they understand my business language and know its ecosystem.