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“O produto interno bruto cresce a taxas cada vez menores"

A economia angola poderá crescer, até 2022, na perspectiva mais optimista, a uma taxa média de 2,5%, “mas não o suficiente para melhorar as condições de vida das populações...

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:
Carlos Aguiar

A economia angola poderá crescer, até 2022, na perspectiva mais optimista, a uma taxa média de 2,5%, o que representa um sinal positivo, “mas não o suficiente para melhorar as condições de vida das populações, tendo em conta que, segundo o Censo populacional, a população cresce à volta de 3,1%”, aponta o docente universitário Francisco Paulo. Para o também pesquisador do Centro de Estudos e Investigação Científica (CEIC) da Universidade Católica de Angola, que alerta que o PIB nacional cresce a taxas cada vez menores, “é necessário que se façam reformas estruturais à economia, em especial no que diz respeito ao sector não- -petrolífero”, para se conseguir atingir o crescimento desejado.

Quais são as suas perspectivas sobre o crescimento da economia nacional em 2018?  

A capacidade de crescimento da economia nacional, de acordo com as Contas Nacionais, é cada vez menor. Ou seja, conforme dizemos na universidade, estamos diante de um processo de desaceleração do crescimento económico, em que o PIB cresce a taxas cada vez menores. O Instituto Nacional de Estatística, quando divulgou a primeira versão das Contas Nacionais, mostrou que em 2016 o país teve um crescimento negativo de -3,6%, o que quer dizer que houve uma recessão. Entretanto, aquando do discurso sobre o Estado da Nação, o Presidente da República, João Lourenço, disse que o país cresceu 0,1% em 2016, embora o Fundo Monetário Internacional (FMI) apresente uma recessão de -0,7%. Mas, quanto à perspectiva de crescimento, as previsões que foram apresentadas pelo FMI, pelo Governo e por nós (Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola) divulgadas dão conta que, de facto, até 2022, a melhor taxa de crescimento que poderemos ter nesse período é de 2,5%. Seja como for, é considerada uma taxa de crescimento positiva, mas não é suficiente para melhorar as condições de vida das populações, tendo em conta que, segundo o Censo populacional, a população cresce à volta de 3,1%, enquanto o crescimento da economia é de 2,5% em termos per capita. Ou seja, não vamos criar riqueza. Pelo contrário, as condições de vida da população poderão diminuir.

E como é que podemos dar a volta a esse constrangimento?  

Para obtermos um crescimento maior que o PIB é necessário que se façam reformas estruturais à economia, em especial no que diz respeito ao sector não-petrolífero. A indústria e a agricultura dependem essencialmente da importação da matéria-prima para funcionar. Na indústria transformadora, por exemplo, tem maior peso o sector das bebidas mas, se repararmos, o essencial da matéria-prima é importado. Com a dificuldade conjuntural que o país teve, no que diz respeito ao acesso às divisas, isso explica a recessão da economia em 2016, porque as empresas, principalmente as produtivas, não conseguiram manter os níveis de produção que de facto pretendiam.

Na sua opinião, poderá haver mou vai manter-se esta tendência de contracção?

Particularmente, entendo que n em si que nos está a conduzir a um crescimento menos bom do sector não-petrolífero. Se reparamos, o boeae,o chamamos em economia, uma política moacto objectivo de controlar os níveis gerais dos preços. Em 2016, terminámos o ano com uma inflação elevada, de 42%, e até Setembro do ano passado tivemos u à volta dos 28,5%. Quer dizer que, até ao final de 2017, poderemos ter chegado aos 30% de inflação, o que é eva.to instrumentos monetários que tem para poder continuar a inflação, no sentido de aumentar a taxa de juros e diminuir a base monetária em circulação, mas a inflação não é apenas um fenómeno monetário. Aliás, o aumento das taxas de juros e a diminuição da base monetária faz com que os empresários tenham dificuldades em receber crédito.

Quais são as causas não monetárias da inflação?

É a rigidez da oferta. Não temos uma oferta nacional de produtos de primeira necessidade em quantidade necessária para satisfazer a procura da população, pois dependemos da importação. Portanto, voltando às minhas expectativas para 2018 no que diz respeito ao crescimento económico, são de que haja uma política monetária mais expansionista para ajudar os empresários a acederem a empréstimos. Esse passo é importante porque, de facto, é o que vai garantir a diversificação da economia. Repare que o sector petrolífero gera cerca de menos de 2% do total de emprego disponível no país, avaliado em seis milhões de postos de trabalho. Entretanto, o investimento no sector agrícola é muito importante, e achei um bom sinal o Presidente da República ter participado no lançamento da campanha agrícola, o que contribuiu para motivar os agricultores. Espero que isso se reflicta nas verbas a serem cabimentadas para o sector da agricultura. E mais, tenho algum optimismo pelo facto de o engenheiro Isaac dos Anjos ser um dos consultores de João Lourenço para área económica.

Isso quer dizer que a diversificação da economia poderá tomar um novo rumo?

Creio que sim. Na Universidade Católica de Angola fizemos um estudo sobre a diversificação e usámos como exemplo a experiência da Malásia, que nos anos 80 do século XX enveredou pelo caminho de promover as exportações, pois notou que, durante o período de proteccionismo económico, a indústria nacional não se tinha desenvolvido como devia. Sendo assim, decidiu abrir-se ao mercado mundial, permitindo a entrada de capitais 100% estrangeiros para investirem no país, desde que 50% da produção das indústrias fosse exportada. Angola precisa de diversificar as exportações, vendendo lá para fora mais produtos do sector não-petrolífero, e são os investidores que garantem essa produção. Portanto, se atrairmos indústrias estrangeiras para produzir localmente, não só para  o mercado interno, mas também para exportar, conseguiremos diversificar as exportações. Mas será necessário haver, antes, uma alteração à Lei do Investimento Privado, pois a actual é pouco atractiva, na medida em que obriga à participação de 35% de investimentos angolanos.

Leia a entrevista completa na edição 160 da E&M.

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