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Covid-19 obriga famílias pobres a adoptar novos hábitos alimentares

José Zangui e Sebastião Vemba
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Foto:
Carlos Aguiar

A incidência de pobreza em Angola é de 41%, afectando perto de 12 milhões de pessoas.

Com poucos recursos financeiros e limitação na circulação, as famílias que vivem em extrema pobreza nas periferias de Luanda adoptaram novos hábitos alimentares. A Kizaca, o peixe lambula e até a "areia" (mistura de fuba de bombom com açúcar) são pratos que embelezam a mesa.

A nova "dieta alimentar" é, para os mais novos, uma novidade, mas para viveu, em Luanda, os confrontos militares de 1992, está apenas uma "reedição" da vivência e dos tempos da fome.

Quem ainda pode adere o fenómeno "sócia", em que duas ou mais pessoas juntam-se para comprar um bem alimentar em maior quantidade, geralmente saco arroz de 25 a 50 quilos, caixa de massa alimentar ou de frango, para depois dividirem. Um exemplo que Telma Manuel segue, para não forçar o bolso.

A  E&M constatou, no mercado Mundial, em Cacuaco, a correria pela busca dos produtos do mar, com destaque para o peixe lambula, um dos produtos mais acessíveis para as famílias pobres. "É importante que nos ajudem, nós não temos o que comer. Prefiro morrer de doença a morrer de fome", disse, uma mulher que comprava peixe.

Mercado informal encerrado devido ao Estado de Emergência

O período de Estado de Emergência foi prorrogado por mais 15 dias, a contar da meia-noite de amanhã, dia 11. Para garantir o consumo de bens alimentares da cesta básica às famílias mais vulneráveis foram disponibilizados recursos no total de 315 milhões de kwanzas para o Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher, que com os Governos Provinciais desenvolve campanhas de distribuição de bens da cesta básica para segmentos da população mais vulnerável. Essa foi uma das decisões saídas da reunião de ontem da Comissão Económica do Conselho de Ministros.

Entretanto, nos próximos quinze dias, as restrições de venda ambulante e nos mercados informais foram atenuadas, sendo que os cidadãos que se dedicam a essas actividades poderão exercê-la trezes por semana, nomeadamente às terças, quintas e sábado, com arranque amanhã.

Segundo o ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do Presidente da República, Adão de Almeida, nesse regime de excepção os mercados paralelos poderão abrir no período das 08h00 às 13h00, enquanto as superfícies comerciais funcionarão entre às 8h00 e as 16h00. Nos dias em que não houver comércio, os responsáveis dos mercados informais deverão higienizar e organizar os espaços de venda.

Recorde-se que o relatório sobre a pobreza multidimensional em Angola, do Instituto Nacional de Estatística  (INE), indica que nove em cada 10 pessoas são pobres em 40% dos municípios do país.

Já segundo o Inquérito sobre Despesas, Receitas e Emprego em Angola (IDREIA 2018-2019), também realizado pelo INE, a incidência de pobreza em Angola é de 41%, afectando perto de 12 milhões de pessoas.

A taxa da pobreza ocorre com grandes diferenças entre as áreas urbanas e rurais e entre as províncias, agrupadas em 11 regiões. Na zona rural, a taxa é de 57,2%, incidindo sobre 6.643.811 pessoas, enquanto na zona urbana é de 29,8%, afectando 5.303.459 pessoas.

As regiões com maior incidência de pobreza são a zona rural do Sul do país, correspondente às províncias do Namibe, Cunene e Huíla, bem como as zonas urbanas do Centro e Norte do país, em que se situam as províncias do Huambo, Bié, Benguela e Cuanza-Sul e Cabinda, Uíge e Zaire.

Em termos de rendimento, o documento indica que a receita média total em Angola está acima de 15 mil kwanzas por mês e por pessoa, sendo estes valores adquiridos, principalmente, por via laboral. Por via não laboral, o valor atinge cerca de três mil kwanzas por mês e por pessoa.

Ainda segundo o documento do INE, o consumo médio real de alimentos, como carne, peixe, queijo, legumes, fruta, bebidas alcoólicas e refeições fora de casa por pessoa e por mês ronda os sete mil kwanzas, sendo na zona urbana acima dos oito mil kwanzas e acima de seis mil kwanzas para a zona rural.

Já o consumo médio não alimentar de produtos como vestuário, calçado, habitação, saúde, transporte, educação e comunicações por pessoa e por mês ronda perto dos 10 mil kwanzas, sendo que 14 mil na zona urbana e de algo mais de quatro mil kwanzas na zona rural.