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Mulheres de botas

Quingila Hebo
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Foto:
Isidoro Suka

No mês consagrado a elas, a E&M conta a história de três mulheres destacadas na engenharia informática, química e mecânica, áreas do saber que, geralmente, são dominadas por homens.

Íris Correia é actualmente directora de engenharia informática na ITA- Internet Technologies Angola SA, uma das maiores operadoras de telecomunicações do país. O percurso académico começou na escola Alda Lara, passou pelo Instituto Médio Industrial, vulgo Makarenko, Universidade Católica de Angola e chegou à Universidade de Liverpool, onde fez o mestrado. Quando era criança, não sonhava em ser nada do que faz hoje. Conta que não tem memória de ter andado a pensar no que iria ser ou fazer. Mas, houve uma altura em que queria ser oceanógrafa, equestre, houve outra altura que estava na moda e as crianças da sua faixa etária queriam ser aeromoças. Hoje é na engenharia de telecomunicações que está a colocar os seus “tijolos” para a construção deste país.  

Afirma que quando, necessariamente, tem de pôr a mão na massa significa que, em princípio, alguma coisa já não correu bem. Mas, há coisas que vai fazendo no dia-a-dia para não esquecer ou por gosto. Quando se trata de algo mais complexo, o seu maior papel é prestar suporte e tentar colocar pessoas que podem resolver o assunto juntas. Facilitar que isso aconteça o mais rápido possível.

A engenheira Íris Correia tem também a responsabilidade de cuidar das encomendas de equipamentos, garantindo que o stock não termine e haja equipamentos necessários para as áreas das quais é responsável. “Procuro também trabalhar com as equipas de marketing, vendas e administração porque os colegas dão sempre ideias de como melhorar a rede, melhorar a prestação de serviços e conseguir novos negócios. Às vezes são pequenos ajustes que temos que fazer e que tem um impacto positivo na operação final”, conta a responsável.

Para chegar aonde chegou, Íris Correia adverte que é preciso trabalhar muito, principalmente no ramo das telecomunicações onde não há muito regimes rígidos de horário. “Se o cliente tiver algum problema, sem ser superado nós não devemos sair. Essa é uma situação que quando se está na escola não se tem visibilidade. Pensa-se que é para trabalhar das 8 às 17 horas.  Costumo dizer que a engenharia informática é um pouco como ser médico. A pessoa tem que estar sempre disponível, não há horários. Não são vidas, mas são sistemas de que dependem do funcionamento das empresas”, compara.

Para quem pretende seguir o mesmo caminho, recomenda determinação. E lembra que, quando começou a estudar engenharia informática na Universidade Católica de Angola já havia bastantes senhoras na turma. “Penso que é um trabalho que qualquer um pode fazer, seja homem, seja mulher, o mais importante é gostar”, incentiva Íris Correia.

A directora de engenharia informática da ITA entende que os grandes desafios para as mulheres no actual contexto são mais culturais. Assegura que na empresa em que trabalha nunca sentiu nenhuma dificuldade por ser mulher, na faculdade idem, mas, de facto, ainda há uma certa dificuldade ao nível cultural, isto é, a partir de casa. “Quem cozinha e cuida da casa, na maioria das vezes, é a mulher, mas quando chega ao serviço tem que trabalhar igual e as mesmas horas que os homens. Por lei, a mulher tem alguns benefícios quando é para ser mãe. Mas estes benefícios hoje também são difíceis de encaixar no mundo corporativo. Respeitamos a lei, mas nem sempre se encaixa nos objectivos das empresas, principalmente quando se trata de mulheres que se tornam mães constantemente, uma vez que fica difícil de gerir a carreira profissional desta mulher”, conclui.

 

Entre o offshore, a maternidade e a docência

Cíntia Lima dos Santos é engenheira química na indústria petrolífera. É esposa e mãe. O seu trajecto académico começou no Colégio Patrícia Rossana II. Conta que sempre gostou de cálculos, por isso estudou Ciências Físicas e Biológicas. Na 11ª e 12ª classes mudou de colégio, mas manteve o curso. Na universidade escolheu formar-se em Engenharia Química no Instituto Superior Politécnico de Tecnologias e Ciências (ISPTEC). Actualmente, frequenta a pós-graduação em Energias, com ênfase em petróleo, gás e transição energética, na COPPE/Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A engenheira Cíntia dos Santos divide,actualmente, o tempo entre a academia, orientando trabalhos de fim de curso no ISPTEC, e a Indústria de Oil&Gas (Onshore e Offshore). Na empresa Oceaneering, quando está offshore, realiza inspecção submarina dos equipamentos utilizados na produção de petróleo e acompanha as operações de manutenção e instalação dos equipamentos. Quando está onshore, supervisiona a equipa de inspectores do escritório e dá tratamento aos dados que recebe das instalações no mar até chegar aos clientes em terra.

Cíntia dos Santos entende que leccionar é das melhores artes que existem. “O conhecimento de nada serve se não for transmitido e, sem sombra de dúvidas, quadros bem formados são uma arma mais do que necessária para qualquer país, sobretudo Angola, que é um país em desenvolvimento. O que puder fazer para contribuir nesse desenvolvimento não medirei esforços. Quanto ao Oil&Gas, sempre sonhei trabalhar no downstream – refinação – entretanto, a porta do upstream – exploração e produção – abriu primeiro e tem sido uma experiência e tanto”, explica.

Assim como defende Íris Correia, Cíntia dos Santos diz também que não enfrenta muitos desafios a nível profissional. O maior desafio é, com certeza, conciliar a vida profissional com a vida pessoal. “Nada que uma boa rede de apoio em casa não resolva. Graças a Deus a minha não me tem deixado mal. A quem quer, nada é difícil. Aprendi ainda durante a universidade. Nunca ninguém disse que seria fácil, mas com Deus, boa disposição e força de vontade, tudo tem corrido como deve correr”, sublinha.

Para as jovens mulheres que pretendem trilhar o mesmo caminho, a engenheira Cíntia aconselha a trabalhem e a serem corajosas. “Garantam que tudo que vocês façam seja bem feito, não importa o que seja para fazer ou quem vos peça para fazer. Não foquem nos louros, não se contentem nunca com o conhecimento que já têm, lembrem que o saber não ocupa espaço. Sejam humildes e peçam ajuda sempre que necessário”, aconselha.

Uma estudante destaca na engenharia mecânica

Eveline Clemente compreende que, como cidadã angolana, é sua missão contribuir para um país melhor e, entre as várias formas que existem de o fazer, escolheu a criação de soluções tecnológicas na área de energias renováveis, pelo facto de o país ter um grande potencial nesta área, capaz de melhorar a qualidade de vida das pessoas, permitindo o acesso à energia eléctrica e à água, impulsionando a agricultura e contribuindo de várias outras formas para o bem-estar da população e para o desenvolvimento económico.

“Por existirem poucas mulheres na área de Engenharia Mecânica e por perceber que tinha a capacidade de operar nesta área, destacando-me da maioria, este tem sido o meu contributo para a igualdade de género”, destaca.

Eveline Clemente é uma das mais destacadas estudantes finalistas do curso de Engenharia Mecânica do Instituto Superior Politécnico de Tecnologias e Ciência(ISPTEC). Destacou-se como melhor aluna finalista do ensino médio do Colégio Ábêcê, foi distinguida com dois diplomas de mérito durante o ensino médio e na universidade integrou a lista das quatro melhores bolseiras do Programa Unitel Mulheres para o Futuro.

Em Janeiro deste ano, abraçou o primeiro desafio profissional na empresa Anglobal como estagiária, na área de energias renováveis. “O meu trabalho é analisar soluções inovadoras para a aplicação em projectos de energias renováveis, supervisionar as etapas de instalação, manutenção e reparo de equipamentos eléctricos, inspeccionando os trabalhos acabados e prestando assistência técnica, efectuar levantamento de dados técnicos, dimensionar e conceber planos de manutenção de sistemas fotovoltaicos, elaborar apresentação de projectos feitos e, por último, realizar testes nos equipamentos”, descreve.

 

Entende que no mundo de hoje não basta ser um excelente estudante ou um exímio profissional dentro da área de actuação. “Somos todos chamados a ser, antes de mais nada, excelentes seres humanos, com inteligência emocional e habilidades sociais. Precisamos adaptar-nos às mudanças cada vez mais rápidas, ser especialistas mas com uma visão generalista dos fenómenos e processos. Achar o equilíbrio entre todas estas exigências têm sido o meu maior desafio”, defende.

Para as outras jovens mulheres que pretendem seguir engenharia mecânica, Eveline recomenda maior dedicação porque entende que o caminho não é fácil, novos desafios surgirão ao longo do tempo, mas isto não deve ser motivo para desanimar, uma vez que a cada desafio estarão mais fortes, mais preparadas, mais confiantes. “Dêem sempre o vosso melhor, por menor e mais insignificante que a tarefa pareça, há sempre alguém a observar e a avaliar o nosso desempenho ou a inspirar-se”, conclui.

Women in boots  

In the month dedicated to them, E&M tells the story of three outstanding women in computer, chemical and mechanical engineering, areas of knowledge that are usually dominated by men. Get to know these three women who exchanged high heels for boots to build the Angola of the future.

Text: Quingila Hebo

Íris Correia is currently director of computer engineering at Internet Technologies Angola (ITA), one of the largest Internet providers in the country. Her academic path started at the Alda Lara school, went through the Medium Industrial Institute, aka Makarenko, the Catholic University of Angola, and reached the University of Liverpool, where she got her master’s degree. When she was a child, she didn’t dream of doing what she does today. She says she has no memory of ever thinking about what she would be or do. But there was a time when she wanted to be an oceanographer or a professional horse rider.And there was another time when it was fashionable and children of her age wanted to be stewardesses. Today it is in telecommunications engineering that she is putting together the “building blocks” for the construction of this country that is Angola.  

She affirms that when itis necessaryto put her “hands on the pump”, it means that, in principle, something has already gone wrong. But there are things she does every day to continue to practice her skills or for pleasure. When she faces more complex challenges, her biggest role is to provide support and try to get people who can work it out together, to make it happen as quickly as possible.

Engineer Íris Correia also has the responsibility of taking care of equipment orders, making sure that the company does not run out of stock and the equipment needed for the areas she is responsible for is available. “I also try to work with the marketing, sales and administration teams because colleagues always give ideas on how to improve the network, improve service delivery, and get new business. Sometimes, they are small adjustments that we have to make, which have a positive impact on the final operation”, says the manager.

To get to where she is now, Íris Correia warns that it is necessary to work hard, especially in the telecommunications business, where thetime schedules are not always rigid. “If the client has a problem, we cannot leave until it is overcome. That is a situation that they don’t tell you about when you are in school. You think you are supposed to work from 8 am to 5 pm. I like to say that computer engineering is a bit like being a doctor. You have to be available all the time, there are no schedules. They are not lives, but systems upon which the functioning of companies depends on”, she compares.

For those who intend to follow the same path, she recommends determination. And remembers that when she started studying computer engineering at the Catholic University of Angola there were already quite a few women in her class. “I think it is a job that anyone can do, whether you’re a man or a woman.The most important thing is to enjoy it”,encourages Íris Correia.

The director of computer engineering at ITA understands that the big challenges for women in the current context are more cultural. She assures that in the company where she works she has never felt any difficulty for being a woman, and at the university the same.If there is still a certain difficulty at the cultural level, that starts at home. “Most of the time, it is the woman who cooks and takes care of the house, but when she goes to work she has to work the same hours as the men. By law, the woman has some benefits when she is a mother,but, today, these benefits are difficult to fit into the corporate world. We respect the law, but it doesn’t always fit into the companies’ objectives, especially when it comes to women who become mothers constantly, since it becomes difficult to manage this woman’s professional career”, she concludes.

 

Between offshore, maternity and teaching

Cíntia Lima dos Santos is a chemical engineer in the oil industry. She is a wife and mother. Her academic career started at Colégio Patrícia Rossana II. She says she always liked to make calculations, so she studied Physical and Biological Sciences. In the 11th and 12th grades she changed schools, but kept the course. At university, she chose to major in Chemical Engineering at the Higher Polytechnic Institute of Technologies and Sciences (ISPTEC). Currently, she is attending a post-graduation course in Energies, with emphasis in oil, gas and energy transition, at COPPE/ Federal University of Rio de Janeiro.

Cíntia dos Santos currently divides her time between academia, supervising end of course work at ISPTEC, and the Oil&Gas Industry (Onshore and Offshore). At Oceaneering, when she is offshore, she performs underwater inspection of equipment used in oil production and monitors the equipment maintenance and installation operations. When onshore, she supervises the team of inspectors in the office and processes the data she receives from the offshore installations until it reaches the onshore clients.

Cíntia dos Santos understands that teaching is one of the best arts there is. “Knowledge is useless if it is not transmitted and, without a shadow of a doubt, well trained staff is a weapon that is more than necessary in any country, especially Angola, which is a developing country. Whatever I can do to contribute to this development I will spare no efforts. As for Oil&Gas, I always dreamed of working in downstream - refining - however, the door to upstream - exploration and production - opened first and it has been quite an experience”, she explains.

Just as Íris Correia defends, Cíntia dos Santos also says she doesn’t face many challenges professionally. The biggest challenge is, for sure, to reconcile professional and personal life. “Nothing that a good support network at home can’t solve. Thank God mine hasn’t let me down. To those who want it, nothing is difficult. I learned it while still in college. No one ever said it would be easy, but with God, good disposition and willpower, everything has been going as it should”, she underlines.

For young women who intend to follow the same path, engineer Cíntia advises to work hard and be courageous. "Make sure that everything you do is done well, no matter what it is to do or who asks you to do it. Don’t focus on the laurels, never be content with the knowledge you already have, remember that knowledge doesn’t take up space. Be humble and ask for help whenever necessary”,she advises.

An outstanding student in mechanical engineering

Eveline Clemente understands that, as an Angolan citizen, it is her mission to contribute to a better country and, among the various ways there are to do so, she chose the creation of technological solutions in the area of renewable energy due to the fact that the country has great potential in this area, capable of improving the quality ofpeople’s lives, allowing access to electricity and water, boosting agriculture and contributing in various other ways to the well-being of the population and to economic development.

“Because there are few women in the field of Mechanical Engineering and because I realized that I had the ability to operate in this area, standing out from the majority, this has been my contribution to gender equality”,she highlights.

Eveline Clemente is one of the most outstanding final year students in the Mechanical Engineering course ISPTEC) She stood out as the best senior high school student at the Ábêcê College, was awarded two merit diplomas during high school, and at university she was on the list of the four best scholarship recipients of the Unitel Women for the Future Program.

In January this year, she embraced her first professional challenge at the company Anglobal as a trainee, in the renewable energies area. “My job is to analyze innovative solutions for application in renewable energy projects, supervise the stages of installation, maintenance, and repair of electrical equipment, inspecting finished work and providing technical assistance, perform technical data survey, size and design maintenance plans for photovoltaic systems, prepare presentations of completed projects done and, finally, perform equipmenttests”,she explains.

 

She understands that in today’s world it is not enough to be an excellent student or an excellent professional in one’s field. “We are all called to be, first and foremost, excellent human beings, with emotional intelligence and social skills. We need to adapt to the increasingly rapid changes, to be specialists but with a generalist view of phenomena and processes. Finding the balance between all these demands has been my greatest challenge”,she says.

For other young women who intend to pursue mechanical engineering, Eveline recommends greater dedication because she understands that the path is not easy, new challenges will arise over time, but this should not be a reason for discouragement, since with each challenge you will be stronger, more prepared, more confident. “Always give your best, no matter how small and insignificant the task may seem, there is always someone watching and evaluating our performance or being inspired”,she concludes.