3
1

Famílias e operadores informais mais pobres

Cláudio Gomes
1
2
Foto:
Carlos Aguiar

Em época de crise económica agravada pela Covid-19, o sector informal continua a ser o parente pobre das medidas e políticas públicas que visam atenuar os efeitos da pandemia.

Um relatório sobre o “impacto da covid-19 na Vida das Zungueiras” indica que a crise gerada pela pandemia afectou 70% das mulheres zungueiras (vendedoras ambulantes), reduzindo entre 50% e 85% os seus rendimentos diários.

A Covid-19, de acordo com a pesquisa realizada em Junho e publicada em Setembro, pela Associação Observatório de Políticas na Perspectiva de Género (ASSOGE), acentuou a pobreza monetária no seio das mulheres. O estudo, que inquiriu directamente as zungueiras e que engloba dados secundários recolhidos noutros estudos e diplomas legais, revela que a diminuição do lucro intensificou a precariedade das condições de vida das mulheres zungueiras e igualmente das famílias de que fazem parte.

De acordo com os dados analisados, os ganhos diários das vendedoras ambulantes servem apenas para manter a alimentação básica, como chá com pão e arroz, para a dieta das suas famílias. Mas as zungueiras não são o único grupo de operadores económicos mais afectados pela pandemia.

De acordo com o presidente da Associação Nova Aliança dos Taxistas de Angola (ANATA), Francisco Paciente, as restrições na lotação e tempo de circulação das viaturas, no período de Estado de Emergência e na Situação de Calamidade Pública, afectaram amplamente os seus associados. As restrições, detalhou o responsável, terão levado muitos micro-empreendedores do sector dos transportes à falência. Acrescentou ainda que a produtividade dos operadores baixou consideravelmente, ao ponto de as receitas não cobrirem os custos de manutenção das viaturas. “Os preços dos acessórios e de peças sobressalentes, causaram a paralisação de algumas frotas”, revelou, esclarecendo que se antes da Covid-19 uma viatura da marca Toyota Hiace, vulgo “Quadradinho”, arrecadava 45.000 kwanzas por dia, de Março a Maio as receitas caíram para 25.000 kwanzas. “Muitos veículos foram desactivados”, acrescentou.

Face à actual situação que as famílias angolanas enfrentam, a socióloga Tânia de Carvalho considera que os desafios do país residem na microeconomia e não na macroeconomia. Entende que a estratégia para a redução das desigualdades e da pobreza devia estar mais centrada nos cidadãos. “É preciso ter o angolano no centro das atenções”, defendeu. Segundo a também activista, a Covid-19 tornou-se hoje a “mãe de todas as incompetências” dos decisores públicos. Lamenta o facto de o Governo focar-se mais nas políticas económicas, priorizando a “estabilidade macroeconómica”, ao invés de apostar-se mais no sector social.

Families and informal operators becoming poorer

In times of economic crisis aggravated by Covid-19, the informal sector remains the poor relative of public measures and policies to mitigate the effects of the pandemic. Families have become poorer.

A report on the “Impact of Covid-19 on Street Vendors” indicates that the crisis generated by the pandemic has affected 70% of female street vendors (zungueiras), reducing their daily income by 50% to 85%. According to a survey conducted in June and published in September by the Gender Policy Observatory Association (ASSOGE), Covid-19 worsened monetary poverty among women. The study, which directly surveyed the zungueiras and includes secondary data collected in other studies and legal diplomas, reveals that the decrease in profits has aggravated the precarious living conditions of the zungueiras, and of the families that depend on them. According to the data, the daily earnings of female street vendors serve only to supply basic food, such as tea with bread and rice, for their families’ diet. But zungueiras are not the only group of economic operators most affected by the pandemic.

According to the president of the New Alliance of Taxi Drivers of Angola (ANATA), Francisco Paciente, restrictions on vehicle capacity and circulation hours, during the Emergency State and Situation of Public Calamity, have largely affected the association’s members. The restrictions, he detailed, have led many micro-entrepreneurs in the transportation sector to bankruptcy. He added that the productivity of the operators has decreased considerably, to the point that the revenues do not cover the vehicles’ maintenance costs. “The prices of accessories and spare parts has caused the paralysis of some fleets,” he said, explaining that if before Covid-19 a Toyota Hiace van collected 45,000 kwanzas per day, from March to May revenues fell to 25,000 kwanzas.

“Many vehicles were taken out of circulation,” he added. Given the current situation faced by Angolan families, sociologist Tânia de Carvalho considers that the country’s challenges lie in the microeconomics and not in the macroeconomy. She believes that the strategy to reduce inequalities and poverty should be more citizen-centered. “It is necessary to put the Angolan in the center of attention,” she argued. According to the activist, Covid-19 has become the “mother of all incompetencies” of public decision makers. She regrets that the government is focusing more on economic policies, prioritizing “macroeconomic stability” rather than the social sector.